As redes sociais se consolidaram como uma das principais ferramentas de denúncia pública no Brasil. Casos de violência, assédio, preconceito e violações de direitos ganham visibilidade em poucos minutos, especialmente em plataformas como TikTok e Instagram. No entanto, especialistas alertam: a viralização pode tanto ajudar quanto prejudicar investigações e a vida das pessoas envolvidas.
O debate voltou ao centro das atenções após um caso registrado na Praia Central de Garopaba, no Sul de Santa Catarina. Um vídeo publicado no TikTok mostrou o relato de uma jovem que afirmou ter sido fotografada sem consentimento enquanto estava na praia. A Polícia Militar foi acionada, o suspeito encaminhado à delegacia e o celular apreendido para investigação. O caso segue em apuração pela Polícia Civil.
Quando a viralização cumpre um papel social
Para analisar os impactos desse tipo de exposição pública, a Rádio Cidade conversou com o jornalista Reginaldo Osnildo. Segundo ele, as redes sociais podem exercer um papel legítimo quando ajudam a colocar temas relevantes no centro do debate público, especialmente em contextos de falha de fiscalização ou ausência de resposta institucional.
Reginaldo cita como exemplo conteúdos produzidos com apuração e responsabilidade, que funcionam quase como um trabalho jornalístico. Nesses casos, a viralização amplia a visibilidade, mobiliza apoio social e pressiona autoridades a agir, além de dar voz a situações que muitas vezes não estão no radar da mídia tradicional.
Os riscos da denúncia sem apuração
Por outro lado, o jornalista alerta para os riscos quando a exposição ocorre sem cuidado com os fatos. Conteúdos baseados apenas em opiniões, versões pessoais ou boatos podem gerar julgamentos antecipados e interferir no andamento de investigações oficiais.
Segundo ele, ao transformar situações complexas em narrativas simplificadas, comuns em vídeos curtos, há o risco de distorção dos fatos e de prejuízos irreversíveis à reputação das pessoas envolvidas. Casos recentes mostram que a falta de compreensão sobre direitos individuais pode levar a exposições injustas e danos pessoais.
Impactos na vida dos envolvidos
Reginaldo lembra que, em Santa Catarina, a Polícia Militar evita divulgar imagens de suspeitos justamente porque investigações podem resultar em absolvições. A exposição pública antes de uma conclusão oficial pode gerar danos profissionais, sociais e emocionais, além de riscos físicos.
Outro ponto destacado é a dificuldade de parte da população em diferenciar crimes de situações apenas antiéticas ou ambíguas. A viralização indiscriminada pode inflar conceitos, estimular linchamentos virtuais e até ameaças reais, já que dados pessoais estão facilmente acessíveis na internet.
O papel do jornalismo profissional
Diante desse cenário, o jornalista reforça que o crescimento das denúncias nas redes acaba fortalecendo o jornalismo profissional. Isso porque cabe à imprensa validar informações, contextualizar os fatos, investigar e, principalmente, decidir quando não dar visibilidade a determinado conteúdo para evitar danos injustificados.
No rádio, esse papel ganha ainda mais relevância por se tratar de um veículo institucionalizado, com responsabilidade jurídica e compromisso público. Diferentemente das redes sociais, onde qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa, o jornalismo profissional atua como filtro, oferecendo informação apurada, responsável e contextualizada.
Entre a denúncia e o julgamento
O caso de Garopaba reacende um alerta importante: as redes sociais podem ser ferramentas legítimas de denúncia, mas exigem responsabilidade, cuidado com os fatos e compreensão dos limites legais e éticos. Nem toda situação que viraliza configura crime, e a exposição precipitada pode causar mais prejuízos do que soluções.
Em um ambiente digital marcado pela velocidade e pela emoção, a informação correta, apurada e contextualizada segue sendo o caminho mais seguro para garantir justiça, cidadania e respeito aos direitos individuais.
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