Obesidade vai além da balança e exige tratamento contínuo, alerta endocrinologista

Especialista destaca que preconceito, desinformação e uso inadequado de medicamentos dificultam o enfrentamento da doença

José Demathé

Publicado em: 27 de janeiro de 2026

7 min.

Obesidade vai além da balança e exige tratamento contínuo, alerta endocrinologista Foto: Imagem ilustrativa

A obesidade é reconhecida como uma doença crônica pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas ainda é tratada com simplificações e julgamentos sociais que dificultam o diagnóstico e o tratamento adequado. O alerta foi feito pelo endocrinologista e professor de Medicina da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Davi Francisco Machado, durante entrevista concedida nesta terça-feira (27), na Rádio Cidade em Dia 89.1 FM, do Grupo SCTODODIA de Comunicação, à jornalista Manuela Oliveira.

Segundo o especialista, o preconceito em torno da obesidade está tão enraizado que atinge inclusive profissionais da área da saúde. A ideia de que a condição seria resultado exclusivo de “falta de força de vontade” ainda é comum, apesar de não encontrar respaldo científico. Para Machado, essa visão compromete diretamente o tratamento, já que a obesidade deve ser encarada da mesma forma que outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão.

Doença crônica e multifatorial

Do ponto de vista médico, a obesidade é tradicionalmente definida pelo Índice de Massa Corporal (IMC), quando o valor ultrapassa 30. No entanto, o endocrinologista ressalta que essa medida isolada tem limitações, pois não diferencia gordura, músculo, água ou estrutura óssea. Por isso, a avaliação clínica deve incluir análise da composição corporal, distribuição de gordura e circunferência abdominal.

Machado explica que não existe uma causa única para a obesidade. Trata-se de uma condição multifatorial, que envolve aspectos genéticos, familiares, hormonais, metabólicos, psicológicos e sociais. Fatores como idade, menopausa, massa muscular, rotina diária, histórico familiar e saúde mental influenciam diretamente o ganho de peso e a dificuldade em emagrecer.

Relação emocional com a comida começa cedo

Outro ponto destacado na entrevista foi a relação afetiva e emocional com a alimentação, construída desde a infância. De acordo com o médico, hábitos alimentares são moldados precocemente, muitas vezes associados a recompensas emocionais. Ao longo da vida, isso pode se transformar em padrões como o comer emocional, o beliscar constante ou o excesso concentrado em determinados períodos, como fins de semana.

O especialista diferencia o comer afetivo — ligado a momentos sociais e de convivência — do comer emocional, que ocorre como válvula de escape para frustrações, ansiedade ou tristeza. Este último, segundo ele, está diretamente associado ao desenvolvimento e à manutenção da obesidade.

Impactos vão muito além da estética

Embora a aparência física seja o aspecto mais visível, Machado reforça que a obesidade representa um importante fator de risco para diversas doenças graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), câncer e problemas articulares. Além disso, afeta significativamente a qualidade de vida, a autoestima e a saúde mental, podendo agravar quadros de ansiedade e depressão.

Nas mulheres, o excesso de peso também pode interferir na fertilidade. A perda de peso, quando bem conduzida, tende a melhorar o equilíbrio hormonal e as chances de gestação, conforme explicou o endocrinologista.

Uso de medicamentos exige cautela

Durante a entrevista, o médico abordou o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”. Ele reconheceu a eficácia dessas drogas no tratamento da obesidade, mas fez um alerta sobre o uso sem acompanhamento médico e sobre produtos de procedência duvidosa.

Segundo Machado, o uso inadequado pode levar à perda excessiva de massa muscular, fraqueza, queda de cabelo e efeito rebote. Além disso, o tratamento da obesidade não deve ser encarado como solução rápida, mas como um processo contínuo, que exige mudanças definitivas no estilo de vida.

Tratamento exige protagonismo do paciente

Independentemente do uso de medicamentos, o endocrinologista reforça que a base do tratamento da obesidade envolve três pilares: alimentação equilibrada, atividade física regular e cuidado com a saúde mental. Ele defende metas realistas, organização da rotina e escolhas sustentáveis a longo prazo, evitando estratégias extremas que não se mantêm com o tempo.

Para Machado, o sucesso do tratamento depende do envolvimento ativo do paciente. “Existe uma diferença entre emagrecer e ser emagrecido”, destacou, ao enfatizar que não há solução milagrosa para uma condição crônica.

A entrevista completa reforça a necessidade de combater a desinformação, reduzir o estigma e tratar a obesidade com a seriedade que o tema exige, sempre com orientação profissional e foco na saúde integral do paciente.


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