Descoberta brasileira pode reverter lesões na medula

Em meio ao Carnaval, pesquisa da cientista Tatiana Sampaio, com proteína da placenta ganha destaque internacional e reacende esperança para pacientes com lesão medular

Leticia Matos

Publicado em: 16 de fevereiro de 2026

6 min.
Descoberta brasileira pode reverter lesões na medula. - Foto: Divulgação

Descoberta brasileira pode reverter lesões na medula. - Foto: Divulgação

Enquanto milhões de brasileiros acompanham blocos e desfiles de Carnaval, uma descoberta científica feita no Rio de Janeiro ganhou repercussão internacional e pode mudar o tratamento de lesões na medula espinhal.

A responsável pelo avanço é a cientista Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Após mais de duas décadas de estudos, ela liderou o desenvolvimento da polilaminina, uma molécula produzida a partir de proteínas extraídas da placenta humana.

O estudo reacende a esperança para pacientes com paraplegia e tetraplegia — condições que, até hoje, eram consideradas irreversíveis pela medicina.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma versão polimerizada da laminina, proteína presente na matriz extracelular, estrutura que sustenta e organiza as células do corpo.

Na prática, a substância funciona como uma espécie de “cola biológica”. Ela recria um ambiente favorável para que neurônios lesionados voltem a se conectar e desenvolvam novos axônios — estruturas responsáveis por transmitir impulsos elétricos.

Entre as principais características da polilaminina estão:

  • Produção em laboratório a partir de proteína humana;
  • Possibilidade de armazenamento em freezer;
  • Aplicação rápida após o trauma;
  • Menor risco de rejeição, por não se tratar de um organismo vivo;
  • Dispensa do uso de imunossupressores.

A proposta é que o produto seja aplicado o mais cedo possível, preferencialmente durante a cirurgia realizada logo após a fratura da coluna.

Resultados já observados

Nos estudos iniciais, seis dos oito pacientes voluntários apresentaram melhora motora após o tratamento. Em alguns casos, houve recuperação significativa dos movimentos.

Os resultados chamaram atenção da comunidade científica porque lesões na medula espinhal sempre foram tratadas como permanentes. Segundo estimativas internacionais, ao menos 15,4 milhões de pessoas vivem com esse tipo de lesão no mundo.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam cerca de 8,4 mil novos casos de trauma raquimedular por ano, a maioria envolvendo homens jovens vítimas de acidentes de trânsito.

Próximos passos dependem da Anvisa

Apesar dos avanços, o tratamento ainda não está disponível na rede hospitalar.

O laboratório Cristália, responsável pela patente e pelo desenvolvimento científico da medicação, aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 ampliada dos estudos clínicos. A nova etapa deve envolver mais cinco pacientes e será conduzida no Hospital das Clínicas do Rio de Janeiro e na Santa Casa.

Essa fase pode durar, no mínimo, três anos, período necessário para comprovar segurança e eficácia antes da eventual liberação para uso amplo.

O investimento estimado para que o medicamento chegue ao mercado é de aproximadamente R$ 28 milhões.

Reconhecimento científico

A pesquisa liderada por Tatiana Sampaio também é acompanhada por grupos de estudo no Brasil e no exterior. Universidades nos Estados Unidos investigam aplicações semelhantes da laminina em outras áreas da regeneração celular, enquanto pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estudam o uso da proteína em tratamentos para diabetes.

Se os resultados forem confirmados nas próximas etapas, a polilaminina pode representar uma das maiores revoluções recentes da neurologia — colocando a ciência brasileira no centro de um avanço com potencial impacto global.


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