Uma entrevista realizada nesta quinta-feira (19), na Rádio Cidade Tubarão, durante o programa Notícias da Cidade – com Milton Alves, reacendeu um debate importante: por que pesquisas científicas que podem transformar vidas recebem tão pouca atenção da sociedade e do poder público?
O assunto ganhou força a partir do exemplo da bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), responsável pelo desenvolvimento da polilaminina — molécula criada em laboratório a partir da laminina, proteína presente no corpo humano, com potencial de regenerar lesões na medula espinhal.
Segundo o veterinário Joares May, no quadro PRESERVACIDADE, o caso evidencia um problema estrutural no Brasil: a ciência só ganha destaque quando há tragédia, comoção ou interesse midiático momentâneo.
A descoberta que pode devolver movimentos
A pesquisa com a polilaminina começou em 1998 e já apresentou resultados promissores. Em estudos iniciais, seis de oito pacientes com lesões medulares apresentaram recuperação parcial de movimentos. Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase clínica para avaliar a segurança do medicamento em humanos.
A expectativa é que a substância estimule a reconexão de fibras nervosas lesionadas, possibilitando a recuperação gradual de movimentos. Estima-se que quase 15 milhões de pessoas no Brasil possam ser beneficiadas, direta ou indiretamente, por avanços nessa área.
Apesar do potencial revolucionário, o tema ainda é pouco debatido fora dos círculos acadêmicos.
“No Brasil quem leva a sério as pesquisas, são os pesquisadores”
Durante a entrevista, Joares May foi direto ao abordar o cenário nacional.
Ele destacou que, independentemente do governo, cortes em verbas para ciência têm sido recorrentes nas últimas décadas. Segundo ele, o Brasil investe pouco em pesquisa e ainda depende excessivamente de editais públicos, enquanto em outros países grande parte do financiamento vem da iniciativa privada.
O veterinário também explicou que muitos pesquisadores trabalham com recursos próprios ou doações internacionais, enfrentando dificuldades para manter laboratórios e projetos ativos.
Joares May acrescentou ainda que a iniciativa privada pode ter papel decisivo nesse cenário. Segundo ele, empresas podem contribuir com aportes financeiros tanto para pesquisas científicas quanto para projetos sociais, fortalecendo a inovação, acelerando resultados e criando um ciclo sustentável de desenvolvimento.
Por que a população não se interessa?
Um dos pontos centrais da entrevista foi a falta de valorização social da ciência.
Para Joares May, a maioria das pessoas só percebe a importância da pesquisa quando enfrenta uma situação de dor — como uma doença grave na família ou uma crise sanitária, a exemplo da pandemia. Fora desses momentos, o tema tende a perder espaço para entretenimento e eventos de grande apelo popular.
Ele defende que a imprensa e os comunicadores têm papel fundamental nesse processo, ao transformar pesquisas complexas em linguagem acessível e aproximar o tema do cotidiano da população.
A ciência está no dia a dia — mesmo quando não é percebida
Durante o programa, o pesquisador lembrou que praticamente tudo o que garante segurança à população — vacinas, exames laboratoriais, medicamentos e protocolos médicos — é resultado de décadas de pesquisa.
Ele também citou estudos desenvolvidos no Brasil sobre vírus, parasitas e doenças que afetam tanto animais quanto humanos, ressaltando que muitas descobertas são feitas antes mesmo de se tornarem crises públicas.
“O papel da pesquisa é antecipar problemas e oferecer respostas antes que a tragédia aconteça”, resumiu.
O desafio da divulgação científica
A entrevista levantou um questionamento importante: como tornar a ciência mais próxima do cidadão comum?
Especialistas apontam três caminhos principais:
- Ampliação da divulgação científica em veículos regionais;
- Incentivo à parceria entre universidades e empresas;
- Educação básica voltada à formação do pensamento crítico.
Sem isso, pesquisas como a da polilaminina podem permanecer restritas ao ambiente acadêmico, mesmo tendo potencial de transformar a vida de milhões de brasileiros.
Brasil pode ser potência científica?
O debate também abordou o potencial do país. Com biodiversidade ampla e universidades reconhecidas internacionalmente, o Brasil reúne condições para se tornar referência mundial em áreas como biotecnologia e medicina regenerativa.
No entanto, segundo os participantes da entrevista, isso depende de políticas públicas consistentes, estabilidade no financiamento e maior reconhecimento social da ciência.
Enquanto isso, pesquisadores continuam trabalhando, muitas vezes longe dos holofotes, em laboratórios que podem estar desenvolvendo a próxima grande descoberta.
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