Quatro em cada dez mortes por câncer no Brasil são evitáveis

Estudo da revista The Lancet aponta que 43,2% dos óbitos poderiam ser reduzidos com prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado

Redação

Publicado em: 21 de fevereiro de 2026

6 min.

Um estudo internacional publicado na edição de março da revista científica The Lancet estima que 43,2% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas com medidas eficazes de prevenção, diagnóstico precoce e acesso adequado ao tratamento.

A pesquisa analisou dados de 35 tipos de câncer em 185 países e aponta que, dos casos diagnosticados no Brasil em 2022, cerca de 253,2 mil devem resultar em morte até cinco anos após a detecção. Desse total, aproximadamente 109,4 mil óbitos poderiam não ocorrer caso políticas públicas e estratégias de saúde fossem ampliadas.

Como as mortes poderiam ser evitadas

Os pesquisadores dividem as quase 110 mil mortes evitáveis no Brasil em dois grupos:

  • 65,2 mil mortes preveníveis: casos em que a doença poderia ser evitada com ações de prevenção primária;
  • 44,2 mil mortes evitáveis: situações em que o diagnóstico precoce e o acesso oportuno ao tratamento poderiam salvar vidas.

Entre os principais fatores de risco associados às mortes preveníveis estão:

  • Tabagismo;
  • Consumo de álcool;
  • Excesso de peso;
  • Exposição à radiação ultravioleta;
  • Infecções causadas por vírus como HPV e hepatite, além da bactéria Helicobacter pylori.

Panorama global: quase metade das mortes poderia ser evitada

Em nível mundial, o estudo aponta que 47,6% das mortes por câncer são evitáveis. Isso representa quase 4,5 milhões dos 9,4 milhões de óbitos registrados globalmente.

Desse total:

  • 33,2% são considerados preveníveis;
  • 14,4% poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Os cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero concentram 59,1% das mortes evitáveis no mundo.

Desigualdades entre países e regiões

O levantamento revela diferenças significativas entre países e regiões, especialmente quando analisado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Nos países com baixo IDH, 60,8% das mortes por câncer poderiam ser evitadas. Já nos países com IDH muito alto, esse percentual cai para 40,5%. O Brasil é classificado como país de IDH alto.

A disparidade é evidente, por exemplo, no câncer de colo do útero:

  • Em países com IDH muito alto, a taxa é de 3,3 mortes por 100 mil mulheres;
  • Em países com IDH baixo, sobe para 16,3 por 100 mil.

Na comparação regional:

Menores índices de mortes evitáveis

  • Austrália e Nova Zelândia: 35,5%;
  • Norte da Europa: 37,4%;
  • América do Norte: 38,2%.

Maiores proporções

  • África Oriental: 62%;
  • África Ocidental: 62%;
  • África Central: 60,7%.

A América do Sul apresenta 43,8% de mortes evitáveis, percentual semelhante ao registrado no Brasil.

Câncer de pulmão e mama lideram estatísticas

Entre os casos preveníveis, o câncer de pulmão é o principal responsável pelos óbitos, com 1,1 milhão de mortes no mundo, o equivalente a 34,6% das mortes preveníveis.

Já entre os casos que poderiam ser revertidos com diagnóstico precoce e tratamento adequado, o câncer de mama lidera. Foram 200 mil mortes tratáveis, representando 14,8% do total.

Caminhos para reduzir as mortes

O estudo destaca estratégias para diminuir as mortes evitáveis, entre elas:

  • Campanhas para reduzir o tabagismo e o consumo de álcool;
  • Aumento de impostos sobre produtos nocivos;
  • Regulação da publicidade e rotulagem de alimentos ultraprocessados;
  • Incentivo à vacinação contra HPV;
  • Ampliação do acesso ao rastreamento e diagnóstico precoce.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece como meta que pelo menos 60% dos cânceres de mama sejam diagnosticados nos estágios iniciais e que mais de 80% dos pacientes recebam diagnóstico em até 60 dias após a primeira consulta.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) mantêm campanhas periódicas de prevenção e detecção precoce, mas os dados indicam que ainda há espaço para avanços significativos, especialmente na redução de desigualdades regionais e no acesso ao tratamento.

Informações: Agência Brasil


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