Morre Jürgen Habermas, o filósofo que influenciou gerações e dividiu a Alemanha

Intelectual alemão marcou o debate público por mais de 70 anos e ajudou a moldar a reflexão política do país no pós-guerra

Redação

Publicado em: 14 de março de 2026

7 min.
Morre Jürgen Habermas, o filósofo que influenciou gerações e dividiu a Alemanha. - Foto: Janine Schmitz/Photothek via Getty Images

Morre Jürgen Habermas, o filósofo que influenciou gerações e dividiu a Alemanha. - Foto: Janine Schmitz/Photothek via Getty Images

O filósofo alemão Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e figura central do debate intelectual europeu, morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, na Alemanha. A morte foi confirmada pela editora Suhrkamp, responsável pela publicação de suas obras.

Ao longo de mais de sete décadas de atuação pública e acadêmica, Habermas se destacou por intervir diretamente nos debates políticos e morais da Alemanha, especialmente na reconstrução democrática do país após a Segunda Guerra Mundial.

Seu pensamento influenciou desde discussões sobre comunicação e democracia até debates sobre o papel da memória histórica, da integração europeia e dos riscos do nacionalismo.

Intelectual que marcou o pós-guerra

Nascido em 18 de junho de 1929, em Düsseldorf, Habermas cresceu em uma Alemanha marcada pelo regime nazista. Ainda jovem, ingressou na Juventude Hitlerista — algo comum entre adolescentes da época —, mas conseguiu evitar o alistamento militar no fim da guerra ao se esconder da polícia militar.

Durante sua formação universitária na Universidade de Bonn, aproximou-se da filosofia crítica e da chamada Escola de Frankfurt, sendo fortemente influenciado por pensadores como Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Foi nesse período que iniciou os estudos que mais tarde resultariam em uma de suas ideias mais conhecidas: o conceito de esfera pública.

Segundo Habermas, a democracia depende da existência de espaços em que cidadãos possam debater livremente questões políticas, algo que se tornou central para a reconstrução da sociedade alemã após o nazismo.

O “educador público” da Alemanha

Para muitos analistas, Habermas desempenhou um papel único na vida intelectual do país.

O biógrafo Philipp Felsch descreveu o filósofo como uma espécie de “educador público” dos alemães, alguém que ajudou a orientar o debate moral e político durante momentos críticos da história recente.

Entre suas principais intervenções públicas estão:

  • críticas ao legado do fascismo na década de 1950
  • defesa da responsabilidade histórica alemã pelo Holocausto
  • debates sobre a reunificação da Alemanha em 1989
  • defesa da integração europeia como proteção contra o nacionalismo
  • reflexões sobre democracia, religião e modernidade

Debate sobre culpa histórica

Um dos momentos mais marcantes de sua atuação ocorreu em 1986, durante o chamado “debate dos historiadores” na Alemanha.

Na época, alguns intelectuais argumentavam que os crimes do regime nazista deveriam ser analisados dentro de um contexto histórico mais amplo. Habermas reagiu publicamente, defendendo que as atrocidades do Terceiro Reich eram únicas e não poderiam ser relativizadas.

Essa posição reforçou a ideia de que a Alemanha precisava enfrentar o passado para consolidar sua democracia.

Para o ex-ministro das Relações Exteriores Joschka Fischer, a contribuição de Habermas foi decisiva para que o país assumisse sua responsabilidade histórica.

Influência também no debate europeu

Habermas também foi um forte defensor da integração europeia, especialmente após a reunificação alemã. Para ele, um projeto político comum era essencial para evitar o retorno de nacionalismos extremos no continente.

No início dos anos 2000, o filósofo participou ativamente da tentativa de criação de uma Constituição Europeia, iniciativa que acabou não se concretizando.

Em seus últimos anos, passou a refletir também sobre o papel da religião nas sociedades modernas, defendendo uma convivência entre valores seculares e tradições religiosas.

Últimos posicionamentos e controvérsias

Mesmo já idoso, Habermas continuou participando de debates políticos.

Em 2022, gerou controvérsia ao apoiar a postura cautelosa do governo alemão no envio de ajuda militar à Ucrânia após a invasão russa. Ele defendia negociações diplomáticas e alertava para os riscos de escalada de um conflito envolvendo potências nucleares.

A posição provocou críticas de autoridades ucranianas e reacendeu discussões sobre pacifismo e segurança na Europa.

Um legado intelectual duradouro

Nos últimos anos, o filósofo demonstrava preocupação com o cenário político europeu, especialmente com o crescimento de partidos nacionalistas e da extrema direita.

Seu legado permanece ligado à defesa da democracia deliberativa — ideia de que decisões políticas devem surgir do debate racional entre cidadãos livres.

Com sua morte, a Alemanha perde um de seus mais influentes intelectuais, responsável por moldar o debate público do país por mais de meio século.


FIQUE BEM INFORMADO:

Entre agora no nosso canal no WhatsApp e receba as principais notícias direto no seu celular.
👉 Clique aqui e acompanhe.



× SCTODODIA Rádios