“Era tudo um lago”: moradora relembra enchente de 1974

Em entrevista à Rádio Cidade, a moradora Maria Nilcéia Juncklaus Preis relembrou os dias de medo, solidariedade e incerteza

Eduardo Fogaça

Publicado em: 24 de março de 2026

5 min.
“Era tudo um lago”: moradora relembra enchente de 1974. Foto: Divulgação/PMT

“Era tudo um lago”: moradora relembra enchente de 1974. Foto: Divulgação/PMT

Mais de cinco décadas depois, a enchente de 1974 segue viva na memória dos moradores de Tubarão, no Sul de Santa Catarina. Considerada a maior tragédia natural da história do município, o desastre completou 52 anos nesta segunda-feira (24), deixando um rastro de destruição, mortes e histórias que resistem ao tempo.

De acordo com dados oficiais, 199 pessoas morreram durante a catástrofe. No entanto, há estimativas de que o número seja ainda maior, já que muitos desapareceram e nunca foram encontrados, levados pela força das águas.

Relato de quem viveu a tragédia

Em entrevista à Rádio Cidade, a moradora Maria Nilcéia Juncklaus Preis relembrou os dias de medo, solidariedade e incerteza vividos durante a enchente.

Na época com 17 anos, ela e a irmã se voluntariaram para ajudar o Corpo de Bombeiros após um chamado feito por rádio.

“Descemos até a ponte e atravessamos a pé. Do outro lado, pegamos uma canoa para chegar aos bombeiros. Quando olhamos a cidade, era tudo um lago só”, recorda.

Segundo ela, o trabalho foi voltado ao apoio aos desabrigados, principalmente na preparação de alimentos.

“Nós ficamos na cozinha, ajudando a lavar panelas e preparar comida para quem estava abrigado na Igreja do Humaitá”, relata.

Momentos de tensão e falta de comunicação

A permanência no local durou cerca de três dias, período marcado pela falta de contato com a família e pela incerteza sobre o avanço das águas.

“Não tínhamos notícia nenhuma. Meus pais não sabiam onde estávamos. Quando nos reencontramos, meu pai caiu no choro”, conta.

Com o agravamento da situação, voluntários e desabrigados precisaram deixar o quartel dos bombeiros por risco de inundação. Muitos buscaram abrigo em igrejas e pontos mais altos da cidade.

Sobrevivência em meio ao caos

Durante os dias mais críticos, alimentos eram escassos e, muitas vezes, vinham de cargas resgatadas por militares em rodovias próximas.

“Tinha caminhões na BR que foram abertos. Trouxeram bolacha, frutas… lembro de muita maçã que foi distribuída para o pessoal”, diz Maria.

A volta para casa só foi possível após a água baixar parcialmente. O deslocamento ainda exigiu o uso de canoas e longas caminhadas em áreas alagadas.

Destruição e reconstrução

Após a enchente, o cenário era de devastação. Casas foram levadas pela correnteza e famílias perderam praticamente tudo.

“A casa da minha avó foi embora. Ficaram só as pedras do alicerce. Na nossa casa, perdemos móveis, comida, eletrodomésticos… tudo”, relembra.

A reconstrução foi lenta e difícil. Sem estradas, o acesso à cidade ficou comprometido por semanas, atrasando a chegada de ajuda.

“Levou quase um mês para familiares conseguirem chegar até Tubarão”, afirma.

Uma memória que resiste ao tempo

Mais do que números, a enchente de 1974 permanece marcada pelas histórias de sobrevivência, solidariedade e perda. Relembrar a tragédia, segundo moradores, é também uma forma de preservar a memória das vítimas e valorizar quem enfrentou um dos períodos mais difíceis da cidade.


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