O crime organizado não respeita muros, grades ou uniformes. E, no Espírito Santo, a mais nova fase de uma investigação do Ministério Público escancarou algo ainda mais perverso: a teia que conecta detentos, advogados e guardas municipais em um esquema de tráfico, corrupção e violação de sigilo — tudo orquestrado de dentro das prisões.
Na tarde da última quarta-feira (25) e na manhã desta quinta-feira (26), o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPES) deflagrou a terceira fase da Operação Telic. O alvo: a cúpula e os braços do Primeiro Comando de Vitória (PCV) na região da Grande Terra Vermelha, em Vila Velha. O que os investigadores encontraram vai muito além de drogas e armas.
O comando atrás das grades
A investigação, mantida sob sigilo até agora, revelou uma estrutura militarizada dentro do crime. A liderança do PCV não está nas ruas — está em celas, emitindo ordens por meio de mensagens repassadas por familiares e, pasmem, advogados. Bilhetes manuscritos, conhecidos no submundo como “catuques”, são levados durante visitas e viram mandamentos cumpridos por integrantes em liberdade. Cada um tem sua função. Cada um sabe o seu lugar na linha de comando.
Mas o que choca não é apenas a comunicação. É quem está do outro lado.
Advogados e guardas municipais na mira
O aprofundamento das investigações produziu provas consistentes de que advogados e servidores públicos — incluindo guardas municipais lotados na Guarda Municipal de Vila Velha — atuavam como peças-chave da organização. Eles violavam sigilo funcional, davam informações privilegiadas sobre operações policiais e até participavam de buscas ilícitas.
O nível de comprometimento chegou a um ponto assustador: houve desvio de drogas apreendidas pela polícia, que voltavam ao mercado, e apropriação de dinheiro e materiais sob custódia do Estado. O tráfico de entorpecentes era, em alguns casos, a contrapartida pelo desvio de função pública.
Saldo: oito presos, nove buscas
A operação cumpriu oito mandados de prisão temporária e nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Vila Velha, Cariacica e Serra. Entre os algemados, três advogados e três guardas municipais — profissionais que juraram servir à lei, mas escolheram servir ao crime.
Aparelhos celulares e bilhetes manuscritos (ou ditados por detentos e redigidos pelos próprios advogados) foram apreendidos. As provas estão nas mãos do MPES.
A ação foi acompanhada por representantes da Comissão de Prerrogativas da OAB/ES e da Corregedoria da Guarda Municipal de Vila Velha, em cumprimento a decisão da 7ª Vara Criminal de Vila Velha. Participaram policiais militares do Núcleo de Inteligência da Assessoria Militar do MPES, agentes da SIPOM/DINT, do BME, do BAC e policiais penais da SEJUS.
O recado
A Operação Telic III não é apenas mais uma fase. É um alerta nacional: o crime organizado infiltrou-se em instituições que deveriam protegê-lo. Advogados que usam a toga como disfarce. Guardas que transformam o distintivo em salvo-conduto para o tráfico. Presos que comandam impérios do crime de dentro de celas que, em tese, deveriam isolá-los do mundo.
Para o PCV, a mensagem é clara. Para a sociedade, a perplexidade é real. As grades da prisão, afinal, não conseguem impedir a audácia de quem tem seus tentáculos fora dela.
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