Inteligência Artificial na Gestão Pública: oportunidades e desafios

A IA está revolucionando nosso trabalho e nossa vida pessoal, a ponto deste momento ser considerado por alguns como a Era da Inteligência Artificial.

Fabricio Attanasio

Publicado em: 6 de maio de 2026

19 min.
Inteligência Artificial na Gestão Pública oportunidades e desafios - 1

Inteligência Artificial na Gestão Pública oportunidades e desafios - 1

A revolução tecnológica já não é mais uma promessa para o futuro: ela é a realidade do nosso presente. No centro dessa transformação está a Inteligência Artificial (IA), uma tecnologia capaz de analisar padrões e aprender para realizar tarefas que antes dependiam exclusivamente do esforço humano. A IA está revolucionando nosso trabalho e nossa vida pessoal, a ponto deste momento ser considerado por alguns como a Era da Inteligência Artificial.

Atuando como consultor e professor universitário em um curso de graduação em Gestão Pública de uma faculdade do Rio de Janeiro, e por ter recentemente ministrado um workshop sobre Inteligência Artificial aplicada à Gestão Pública, senti-me motivado a escrever sobre esse importante tema. Principalmente porque entendo que, na gestão pública, há muitos desafios e oportunidades para incorporar e integrar essa tecnologia sem perder a essência do serviço ao cidadão.

Mas afinal, por que a IA ganhou força apenas agora? Antes de buscarmos responder a essa pergunta, precisamos reconhecer alguns pontos importantes:

  • A gestão pública deve estar alinhada às transformações e às demandas atuais e futuras dos cidadãos e da sociedade.
  • O setor público lida com um volume muito grande de dados e processos manuais.
  • A IA não vai substituir o servidor público, mas quem domina essa tecnologia terá um enorme diferencial em sua carreira.

O que muda?

  • De um governo reativo (que espera que o problema acontecer) para um governo preditivo (que antecipa demandas e eventuais problemas).
  • Menos tempo gasto em formulários e mais tempo dedicado à estratégia e ao atendimento humanizado.

Mas será mesmo? Vamos discutir sobre isso e muito mais a seguir. Confira!

Principais fatores que aceleraram a utilização da IA

Sem dúvida, alguns fatores que ocorreram na mesma época ajudaram a acelerar e popularizar a Inteligência Artificial no mundo e no Brasil. Criei uma representação com os principais fatores para facilitar esse entendimento, apresentados de forma simples a seguir para você conhecer.

1.  Pesquisa em CT&I (Ciência, Tecnologia e Inovação): Publicada em 2017 por pesquisadores do Google, a criação da arquitetura Transformer (artigo Attention Is All You Need) foi um marco fundamental da IA generativa moderna. Ela permitiu que a IA processasse contextos inteiros de uma vez, em vez de palavra por palavra, tornando o entendimento muito mais rápido e profundo.

2. Expansão dos Hardwares: A adaptação dos chips da NVIDIA possibilitou o processamento de volumes massivos de dados em semanas, tarefa que antes levaria décadas.

3. Infraestrutura Digital: O alto volume de dados disponível e a velocidade da internet forneceram a “matéria-prima” e a via de distribuição necessárias para o crescimento da tecnologia.

4. Democratização do acesso: O lançamento do ChatGPT (2022) tornou a IA acessível ao público leigo. A interface de conversa natural permitiu que qualquer pessoa utilizasse a ferramenta sem precisar saber programação. Hoje, diversas ferramentas de IA seguem o mesmo princípio.

5. IA Generativa Multimodal: A expansão para além do texto — incluindo imagens, áudios e vídeos — veio acompanhada de ferramentas de fácil utilização.

6. Evolução para Agentes de IA: A transição atual (2025–2026) da IA que apenas responde para a IA que executa tarefas complexas de forma autônoma e colaborativa (Sistemas Multiagentes) já não é mais tendência, mas realidade.

7. Soberania e Integração Local: Governos e empresas têm investido em infraestruturas próprias de IA, garantindo maior privacidade e independência tecnológica.

O grande desafio da mudança cultural: um novo Governo

Quando concluí uma pós-graduação em Gestão Pública, pude compreender que boa parte dos modelos e práticas adotadas foi moldando a cultura e definindo o que é a gestão pública de hoje. Assim, na minha visão, para a implantação de tecnologias e da Inteligência Artificial na Gestão Pública, é imprescindível conhecer o Modelo Patrimonialista, o Modelo Burocrático e o Modelo Gerencialista (ou Nova Administração Pública). Esses referenciais ajudam a compreender a cultura predominante na gestão pública, seja ela municipal, estadual ou federal.

Em geral, a administração pública tem operado de forma reativa, respondendo aos problemas apenas após sua ocorrência. A IA e outras tecnologias possibilitam uma mudança de paradigma para um governo preditivo, ou seja, capaz de antecipar demandas, identificar falhas e prevenir problemas antes que eles aconteçam.

Exemplos reais no Brasil já demonstram esse potencial:

  • Segurança Pública (Piauí): O cruzamento inteligente de dados reduziu em 40% o roubo de celulares no estado, recuperando mais de 5.000 aparelhos em apenas 8 meses.
  • Educação (Santa Catarina): Algoritmos de Machine Learning em Rio do Sul alcançam 99% de precisão ao prever quais alunos estão prestes a abandonar a escola, permitindo intervenções preventivas.
  • Fiscalização (TCE/SC): O sistema VigIA utiliza modelos de linguagem para ler 100% dos editais públicos, identificando cláusulas abusivas instantaneamente — um trabalho impossível para auditores humanos devido ao volume de dados.

Existem vários outros exemplos, mas gostaria de destacar o caso que tive a oportunidade de conhecer: o VigIA, do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE/SC).

O VigIA é o sistema de inteligência artificial do TCE/SC focado no controle preventivo, sendo um dos mais avançados do país. Utilizando tecnologia de modelos de linguagem (LLM) especializada em Direito Administrativo, a ferramenta resolve a impossibilidade humana de analisar manualmente os cerca de 250 novos editais publicados diariamente no estado. O robô monitora 100% das publicações enviadas pelo sistema e-Sfinge, identificando automaticamente cláusulas restritivas ou indícios de sobrepreço antes mesmo da licitação ocorrer.

Com isso, o sistema permite a retificação imediata de editais, garantindo a economia de milhões de reais e evitando a paralisação de obras. Em 2024, o VigIA fiscalizou R$ 2,5 bilhões, mantendo o ritmo em 2025 com milhares de análises realizadas já no primeiro trimestre. Idealizado pelo Laboratório de Inovação do Controle Externo (Lince) do TCE/SC, o VigIA permitirá, quando em pleno funcionamento, a leitura de 100% dos editais de licitação lançados pelos 295 municípios catarinenses e pelo governo do Estado.

Você sabia?

Existe um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028. Infelizmente, muitas vezes ficamos de fora dos processos participativos e de planejamento do futuro do país. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024–2028 é um exemplo: ele define uma estratégia nacional para promover a soberania tecnológica e o progresso social por meio da inovação digital.

Com um investimento previsto de R$ 23,03 bilhões, a proposta foca em cinco pilares fundamentais.

Os 5 eixos estruturantes do Plano IA para o Bem de Todos são:

  1. Eixo 1: Infraestrutura e Desenvolvimento de IA Foca em posicionar o Brasil como líder mundial em inteligência artificial, investindo na capacidade de processamento (incluindo supercomputadores) alimentada por energias renováveis e promovendo pesquisa, ecossistemas de dados e o desenvolvimento de modelos avançados de linguagem em português.
  2. Eixo 2: Difusão, Formação e Capacitação em IA Visa despertar, formar, capacitar e requalificar talentos em todos os níveis educacionais e profissionais, a fim de suprir a alta demanda por mão de obra qualificada e fomentar o uso crítico da tecnologia pela sociedade.
  3. Eixo 3: IA para Melhoria dos Serviços Públicos Tem como objetivo tornar o governo um modelo global de eficiência e inovação. Este eixo abrange a criação de um ecossistema de dados públicos em nuvem soberana, o desenvolvimento de soluções para melhorar o atendimento ao cidadão e a capacitação de servidores públicos.
  4. Eixo 4: IA para Inovação Empresarial Busca estruturar uma robusta cadeia de valor da IA no país, apoiando as missões da Nova Indústria Brasil (NIB). O foco é fomentar startups, criar datacenters nacionais sustentáveis e desenvolver soluções de IA para aumentar a produtividade e competitividade da indústria, comércio e serviços brasileiros.
  5. Eixo 5: Apoio ao Processo Regulatório e de Governança da IA Contribui para estabelecer um arcabouço de governança focado no uso ético e confiável da IA. O eixo prevê o aperfeiçoamento do marco regulatório para proteger os direitos humanos, os direitos autorais e a integridade da informação, posicionando o Brasil como referência em regulação responsável.

Na verdade, já “perdemos o bonde” mundial da IA, pois estamos distantes dos países que lideram essa corrida. A questão que surge é: será que essa estratégia e os recursos planejados vão sair do papel ou será mais um plano que ficará enfeitando mesas e gavetas no Planalto?

Potencial o Brasil tem. O que falta, então?

No cenário global de 2026, a Inteligência Artificial é dominada por uma disputa acirrada entre duas superpotências: Estados Unidos e China.

  • Estados Unidos: Continuam sendo o líder global isolado em termos de investimento privado, infraestrutura de computação e ecossistema de startups. É a sede das empresas que definem os modelos (como OpenAI, Google, Microsoft e Nvidia) e possui os centros tecnológicos mais influentes, como o Vale do Silício, entre outros.
  • China: É a principal rival dos EUA. Sua estratégia chama atenção, liderando em volume de publicações acadêmicas e pedidos de patentes. O país domina áreas específicas como reconhecimento facial, vigilância e aplicações industriais, adota um modelo de IA em código aberto e, diante das barreiras impostas pelos EUA em relação aos processadores da NVIDIA, busca se reinventar para superar essa dependência dos americanos.

Embora os EUA e a China dominem a criação da tecnologia, outros países lideram no uso prático pela população:

  • Emirados Árabes Unidos: Consolidaram-se como o país nº 1 em adoção de IA no final de 2025, com 64% da população em idade ativa utilizando ferramentas de IA.
  • Singapura: Ocupa o segundo lugar global em adoção (60,9%), sendo referência em integração da IA nos serviços públicos e na governança.
  • Coreia do Sul: Destaca-se pelo crescimento acelerado (acima de 4 pontos percentuais no final de 2025) e pela liderança em IA aplicada à robótica e eletrônicos.
  • Europa (Reino Unido e União Europeia): O Reino Unido mantém posição forte em pesquisa e startups, com projeções de que 22% das suas empresas adotem IA em 2026. A União Europeia lidera o debate sobre regulamentação ética, embora enfrente desafios na escala de investimento em comparação aos EUA.
  • América Latina (Brasil e Chile): O Chile é reconhecido pela melhor governança e pesquisa da região. O Brasil destaca-se como a potência regional em infraestrutura, concentrando mais de 90% da capacidade de computação da América Latina, embora ainda precise converter essa vantagem em difusão setorial ampla.

Neste cenário, qual o papel do servidor no século XXI?

Existe um receio comum de que a tecnologia substitua o trabalhador. No entanto, o papel da IA na gestão pública não é substituir o servidor, mas sim atuar como um “braço direito” estratégico. Ao delegar tarefas repetitivas e burocráticas para sistemas automatizados, o servidor libera tempo para aquilo que as máquinas não podem fazer: empatia, conexão humana e entendimento do contexto social.

Dominar essa tecnologia torna-se, portanto, um diferencial competitivo crucial na carreira pública. O “Servidor do Futuro” é aquele que utiliza a IA para oferecer um atendimento de excelência e humanizado à população.

Ética e Transparência em Inteligência Artificial

A adoção da IA Generativa (IAG) no setor público deve ser guiada, assim como em outros setores, por princípios fundamentais para garantir a segurança jurídica e social:

  1. Legalidade: Conformidade estrita com a LGPD e normativos vigentes.
  2. Impessoalidade: Decisões baseadas em critérios objetivos e livres de vieses.
  3. Moralidade e Publicidade: Processos transparentes que permitam auditoria e respeitem as garantias democráticas.
  4. Eficiência com Revisão Humana: Automatização de fluxos, sempre sob supervisão e validação final de um profissional.

Neste contexto, destaco um artigo elaborado pela amiga Sandra Sinicco, co-líder do TBA Brazil, onde também atuo como co-líder de um Hub Local em SC, em conjunto com membros da Comissão de Futuro da Governança do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O artigo pode ser acessado pelo link: ibgcondemand.org/etica-em-inteligencia-artificial.

Um convite à mudança

Assim como na implantação de qualquer tecnologia, a Inteligência Artificial, na minha visão, precisa ir além da parte técnica: deve considerar a cultura, a gestão, os processos e as pessoas para alcançar sucesso. Diante disso, o letramento em IA tornou-se estratégico e urgente. Não basta apenas ter as ferramentas; é preciso desenvolver pensamento crítico para usá-las com discernimento.

A tecnologia oferece o caminho para uma gestão mais ágil e inteligente, mas o motor dessa mudança continua sendo as pessoas. Investir na capacitação é, portanto, fundamental.

Como já dizia Mahatma Gandhi, precisamos “ser a mudança que queremos ver no mundo”. Na gestão pública, essa mudança começa pela abertura ao novo e pelo compromisso em usar a tecnologia para melhorar, verdadeiramente, o dia a dia do servidor público e, principalmente, a vida do cidadão.

Para interagir com o novo colunista, os leitores poderão entrar em contato através do link https://linktr.ee/fabricioattanasio.


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