Cotidiano
E se a enchente de 1974 acontecesse hoje?
Na cotação atual, prejuízo da época estaria na casa dos R$ 11 bilhões em Tubarão

Por
Matheus Machado

Em um domingo de março, a ferocidade das águas do Tubarão tomou uma forma ainda não vista. Após uma intensa semana de chuva, em que o rio ameaçava transbordar de sua calha constantemente, imaginou-se que o pior já havia sido superado. Foi quando, de forma rápida e violenta, as águas do rio invadiram a cidade, carregando sonhos, casas, vidas e deixando uma mancha de lama na história de Santa Catarina.
Histórico
A enchente de 1974 é, até hoje, considerada uma das piores tragédias socioclimáticas da história do estado, com 199 mortos registrados oficialmente. No entanto, essa não foi a primeira vez que Tubarão sofreu com as cheias de seu rio. De acordo com dados apresentados no XVI Seminário da Enchente, o município enfrenta problemas dessa natureza desde 1880, com um episódio registrado em novembro daquele ano.
Depois, em outro evento climático, um pilar da ponte férrea no bairro Passagem foi comprometido em setembro de 1884. Em maio de 1887, outras três pontes foram danificadas na cidade. Uma década depois, em setembro de 1897, o rio voltou a transbordar, algo que se repetiu em 1928.
Ao longo do seminário, a Secretaria de Proteção e Defesa Civil de Tubarão apresentou um levantamento das últimas ocorrências de chuvas persistentes em cidades da região, como Anitápolis, Orleans, Armazém e no bairro Rio do Pouso – locais onde estão afluentes do Rio Tubarão e que chegaram a registrar até 650 mm de precipitação em curtos intervalos de tempo. Os técnicos também indicaram os níveis atingidos pelos corpos d’água nesses períodos, além de fazerem uma associação com os fenômenos El Niño e La Niña.
Na última cheia registrada na cidade, ocorrida em outubro de 2023, precipitações de até 227 mm foram registradas na região, com o nível do Rio Tubarão alcançando 8 metros em pontos específicos. Nessa ocasião, na altura da ponte Orlando Francalacci, o rio chegou a 6,9 metros.
Impactos
Assim como em maio de 2022 e outubro de 2023, muitas pessoas sofreram prejuízos enormes e até perderam suas moradias após as cheias do rio. No entanto, uma das características que chama a atenção no comparativo com aquela época é o crescimento da cidade nos últimos 50 anos.
Segundo uma reportagem da Gaúcha Zero Hora, dos 70 mil habitantes de Tubarão em 1974 (excluindo os moradores dos distritos), 60 mil ficaram desalojados. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Cidade Azul tem hoje mais de 110 mil habitantes.
O crescimento populacional também se reflete na expansão urbana em direção ao rio. Em 2025, é possível ver muitas casas, salas comerciais e prédios a poucos metros das margens do Rio Tubarão. Um exemplo marcante é a área onde hoje fica o shopping da cidade. Em 1961, no mesmo terreno, funcionava a Companhia de Cigarros Souza Cruz, cercada por campos e vegetação.
Veja um comparativo das mesmas regiões:
Prejuízos
A marca histórica, a dor de quem passou pela tragédia e, principalmente, as vidas perdidas não deveriam ser tratadas meramente como estatísticas. Ainda assim, estima-se que a cidade tenha sofrido um prejuízo aproximado de 400 milhões de dólares com a enchente de 1974.
De acordo com dados de 1976, os danos ao patrimônio familiar, os lucros cessantes das empresas e os gastos com infraestrutura compõem os prejuízos econômicos do município. Também houve perdas significativas em áreas públicas e privadas, com destaque para os setores da agricultura e pecuária.
O valor aproximado da perda foi atualizado em 2023, saltando para um prejuízo de 2 bilhões de dólares — o equivalente, na época, a R$ 11.223.000.000,00, com o dólar a uma cotação de R$ 5,22/US$.
A redragagem
Após a tragédia, uma obra do governo federal literalmente mudou o rumo de Tubarão. O rio foi retificado, com alterações em seu curso em alguns trechos, além de um desassoreamento que elevou sua vazão de 500 m³/s para 2.100 m³/s. A obra, iniciada em 1978, foi entregue em 1982. Nesse período,importantes autoridades visitaram a Cidade Azul, incluindo o então presidente da República, general Ernesto Geisel.

Em azul, o curso do original do rio, enquanto o amarelo sinaliza como ficou a mudança após a retificação
Desde então, com a ocorrência de eventos em períodos cada vez mais curtos, a comunidade volta a pedir intervenções em busca de mais segurança. A principal delas é a obra de redragagem do rio, que ganhou força após 2022.
Importantes discussões avançaram nos últimos anos, como em 2024, quando os deputados da Bancada do Sul da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) estiveram em Tubarão para anunciar projetos relevantes para a região. Entre eles, um desassoreamento na área do Porto de Laguna e uma readequação nos Molhes da Barra, que ajudariam a aumentar a vazão de água do Rio Tubarão em direção ao mar.
Apesar disso, a situação deve ganhar um novo capítulo apenas em maio deste ano, quando a licitação para iniciar os estudos dos projetos deverá ser lançada, com prazo de dois anos para conclusão.
Com relação à redragagem de 27 km do Rio Tubarão, projetada para ser realizada em quatro lotes — desde os Molhes de Laguna até a ponte férrea, em Capivari de Baixo —, a morosidade é ainda maior. Um projeto elaborado em 2013 deveria ter sido atualizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que já deveria ter enviado os professores e técnicos responsáveis pelo processo em 2024, mas, até o momento, eles ainda não compareceram à cidade.
Atualmente, estima-se que 40% do escoamento do Rio Tubarão esteja comprometido por sedimentos acumulados no fundo, aumentando a preocupação da população, que pede urgência em ações para mitigar os impactos.
Solução?
Representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão e Complexo Laguna indicam que, embora a redragagem seja a principal medida a ser tomada, ela sozinha não resolveria todos os problemas. A elevação da calha do rio na região central, a construção de barragens de contenção ou até a criação de áreas de alagamento temporárias são alternativas que o estudo da universidade pode apontar como formas de reduzir os impactos em casos de cheias.
Ainda assim, segundo uma projeção apresentada pela Defesa Civil municipal de Tubarão, baseada nos estudos de 2013, a dragagem do rio poderia ter reduzido a elevação da água em até 91 cm nas cheias mais recentes. Essa redução poderia variar conforme as condições e as regiões afetadas, mas já seria suficiente para evitar alguns prejuízos.
Comparativos
Na rua Lauro Müller, o dono de um prédio onde atualmente funciona uma loja de perfumaria, manteve uma placa indicando a altura em que a água do rio subiu em 1974: