Desnutrição e obesidade expõem crise na infância brasileira

Os dados fazem parte do estudo “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026”, divulgado pela Fundação Abrinq

Eduardo Fogaça

Publicado em: 20 de março de 2026

6 min.
Desnutrição e obesidade expõem crise na infância brasileira. Foto: Divulgação

Desnutrição e obesidade expõem crise na infância brasileira. Foto: Divulgação

A infância brasileira enfrenta um cenário preocupante, marcado pela convivência entre desnutrição, obesidade e estagnação na queda da mortalidade infantil. Os dados fazem parte do estudo “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026”, divulgado pela Fundação Abrinq, que reúne indicadores sociais e de saúde com base em estatísticas oficiais.

O levantamento mostra que, após décadas de avanços, o país vive um momento de inflexão na garantia de direitos das crianças. Entre os principais sinais de alerta estão a interrupção da redução da mortalidade infantil, o aumento do baixo peso ao nascer e a persistência da insegurança alimentar.

Mortalidade infantil deixa de cair

Um dos pontos mais sensíveis do estudo é a estagnação da mortalidade infantil. Em 2024, a taxa permaneceu em 12,6 óbitos por mil nascidos vivos, repetindo os índices de 2022 e 2023. Já a mortalidade de crianças até 5 anos ficou em 14,9 por mil.

Após atingir 11,5 em 2020, o indicador voltou a subir e não apresentou novos avanços. Especialistas apontam que a estabilidade por três anos seguidos já representa um alerta, pois o índice está diretamente ligado às condições de vida, acesso à saúde e qualidade do pré-natal.

As desigualdades regionais também persistem. Confira os dados de 2024:

  • Norte: 15,7 óbitos por mil nascidos vivos
  • Nordeste: 13,5
  • Centro-Oeste: 12,6
  • Sudeste: 11,7
  • Sul: 10,4 (menor índice do país)

Baixo peso e obesidade crescem

Outro dado preocupante é o aumento do número de bebês que nascem com baixo peso. Em 2024, 9,5% dos recém-nascidos tinham menos de 2,5 quilos — o maior percentual da série histórica.

Esse indicador está relacionado a fatores como:

  • Falta de acompanhamento pré-natal adequado
  • Insegurança alimentar
  • Baixa renda e escolaridade
  • Dificuldade de acesso a serviços de saúde

Ao mesmo tempo, o país enfrenta o avanço da obesidade infantil. Entre os principais números:

  • 3,6% das crianças até 5 anos estão com baixo peso
  • 11,7% apresentam déficit de crescimento
  • 5,8% têm excesso de peso nessa faixa etária
  • 9% das crianças de 5 a 10 anos estão obesas (mais de 588 mil casos)

O estudo destaca que a insegurança alimentar não se resume à falta de comida, mas também à má qualidade da alimentação, com maior consumo de produtos ultraprocessados.

Gravidez na adolescência recua

Em meio aos desafios, um dos poucos avanços foi a redução da gravidez na adolescência. Em 2024, 11,4% dos nascidos vivos eram de mães com até 19 anos, contra 14,7% em 2019.

A queda foi registrada em todas as regiões do país:

  • Norte: de 22,1% para 18,5%
  • Nordeste: de 17,8% para 13,7%
  • Sudeste: 8,8%
  • Sul: 8,3%

Apesar da melhora, o Brasil ainda registrou mais de 273 mil nascimentos de mães adolescentes em 2024, incluindo casos de meninas entre 10 e 14 anos.

Pobreza afeta quatro em cada dez crianças

O estudo também evidencia o impacto da pobreza na infância. Em 2024:

  • 24,5% da população brasileira vivia com até meio salário mínimo
  • 8% estavam em extrema pobreza

Entre crianças, os números são ainda mais graves:

  • 40,9% das crianças até 6 anos vivem na pobreza
  • 40,8% das crianças até 12 anos estão na mesma condição
  • Cerca de 14% enfrentam pobreza extrema

A renda insuficiente compromete o acesso a alimentação, saúde, educação e moradia, afetando diretamente o desenvolvimento infantil.

Desafios exigem políticas públicas

Para especialistas, reverter esse cenário exige ações integradas, como:

  • Ampliação de programas de transferência de renda
  • Investimento em pré-natal e atenção básica
  • Fortalecimento da merenda escolar com alimentos frescos
  • Educação alimentar e nutricional
  • Monitoramento contínuo dos indicadores

Segundo a Fundação Abrinq, os dados mostram a necessidade de recolocar a primeira infância no centro das políticas públicas, diante dos sinais de retrocesso em áreas essenciais.


FIQUE BEM INFORMADO:
Fique por dentro do que acontece em Santa Catarina!
Entre agora no nosso canal no WhatsApp e receba as principais notícias direto no seu celular.
Clique aqui e acompanhe.



× SCTODODIA Rádios