Família abrigou mais de 70 pessoas na enchente de 1974

Entre os relatos que marcaram o episódio está o da família Piva, que acolheu mais de 70 pessoas dentro de casa durante a cheia do Rio Tubarão

Eduardo Fogaça

Publicado em: 24 de março de 2026

6 min.
Família abrigou mais de 70 pessoas na enchente de 1974. Foto: Divulgação/PMT

Família abrigou mais de 70 pessoas na enchente de 1974. Foto: Divulgação/PMT

A enchente de 1974, maior tragédia da história de Tubarão, no Sul de Santa Catarina, deixou cerca de 60 mil desabrigados e dezenas de mortos. Com praticamente toda a área urbana atingida, moradores precisaram buscar abrigo em regiões mais altas — e a solidariedade foi essencial para enfrentar o desastre.

Entre os relatos que marcaram o episódio está o da família Piva, que acolheu mais de 70 pessoas dentro de casa durante a cheia do Rio Tubarão. A história é contada por Otávio Piva, filho de Marucha Piva.

Casa virou abrigo para dezenas de pessoas

Localizada no início do Morro da Catedral, a residência se tornou um ponto seguro à medida que a água avançava pela cidade. Amigos, vizinhos e conhecidos começaram a chegar em busca de proteção.

“Foi uma loucura, né? […] o pessoal começou a chegar, porque meu pai era muito conhecido. Eram amigos, vizinhos, pessoas que moravam mais para baixo e não tinham para onde ir”, relembra Otávio.

Segundo ele, o acolhimento aconteceu de forma natural, à medida que a situação se agravava.

“Então o rio começou a subir, começou a transbordar e esse pessoal começou a vir para o morro. E os nossos conhecidos foram acolhidos dentro de casa. Era uma casa grande, então todo mundo foi ficando ali.”

Histórias que ficaram na memória

Mesmo em meio ao cenário de destruição, algumas situações marcaram profundamente quem viveu aqueles dias.

Uma delas envolve uma vaca encontrada durante a enchente, que acabou ajudando na alimentação das pessoas abrigadas.

“Até passou uma vaca na frente da nossa casa. Eles amarraram ela ali e começaram a tirar leite. Esse leite serviu para alimentar muita gente que estava lá”, conta.

Outro episódio lembrado é o reencontro emocionante de uma família com seus animais de estimação.

“Eles perderam os cachorros no caminho. Mas quando voltaram para casa, os cachorros vieram correndo pela lama, pulando neles de alegria. Eles não sabem onde os animais ficaram durante a enchente.”

Rotina improvisada dentro de casa

Com mais de 70 pessoas no mesmo espaço, foi necessário organizar a convivência. Cada família ocupava um cômodo, e os alimentos eram divididos.

“A minha mãe tinha feito um rancho bem grande. E quem chegava também trazia o que podia, bolacha, comida, o que conseguiu salvar”, relata.

A escassez de água potável exigiu medidas improvisadas.

“A água da caixa era só para beber. A gente colocava baldes para pegar água da chuva, para usar no banheiro, para limpeza. Era tudo racionado.”

Um gesto visto como natural

Apesar da dimensão do acolhimento, a atitude da família foi encarada como algo comum dentro dos valores em que foram criados.

“Para mim é uma coisa normal. Minha família sempre foi muito solidária. Se você está vendo uma pessoa em dificuldade, ainda mais sendo conhecida, você ajuda”, afirma Otávio.

Ele reforça que a decisão dos pais fez diferença para muitas pessoas.

“Foi uma atitude nobre. Eles podiam ter se fechado, mas preferiram acolher. E foi assim que passaram aqueles dias, até todo mundo poder voltar para casa.”

Memória que atravessa gerações

Mais de cinco décadas depois, histórias como a da família Piva ajudam a manter viva a memória da enchente de 1974. Além da destruição, o episódio também é lembrado pelos gestos de empatia que fizeram a diferença em um dos momentos mais difíceis da história de Tubarão.


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