O uso de novas tecnologias tem ampliado a capacidade de governos e organizações internacionais no enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, uma das atividades criminosas mais lucrativas do mundo. Ferramentas digitais baseadas em inteligência artificial, análise de dados e testes científicos rápidos estão ajudando autoridades a agir de forma mais estratégica, deixando para trás um modelo de fiscalização majoritariamente reativo.
No fim do último ano, uma operação coordenada pela Interpol em 134 países resultou na apreensão de cerca de 30 mil animais vivos, no confisco de produtos vegetais e madeireiros ilegais e na identificação de aproximadamente 1.100 suspeitos. No Brasil, foram identificados 145 investigados e resgatados mais de 200 animais silvestres, incluindo o desmantelamento de uma quadrilha internacional especializada no tráfico de micos-leões-dourados.
Um crime bilionário e altamente adaptável
De acordo com o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), o tráfico de animais e plantas silvestres movimenta entre US$ 7 bilhões e US$ 23 bilhões por ano. Os criminosos negociam desde animais vivos até partes de espécies, como marfim, óleos vegetais, pós e artefatos, incluindo instrumentos musicais.
Para escapar da fiscalização, as redes ilegais utilizam estratégias sofisticadas, como nomes falsos para espécies, descrições genéricas em documentos de transporte, linguagem codificada em anúncios online e mudanças constantes de rotas e plataformas digitais.
Tecnologia aplicada à fiscalização
Entre os avanços que estão transformando o combate a esse tipo de crime, destacam-se:
- Triagem inteligente de cargas: equipamentos avançados de raio-X, combinados com softwares de detecção de anomalias, ajudam a identificar volumes suspeitos em meio a milhões de remessas internacionais.
- Identificação assistida por IA: sistemas com inteligência artificial permitem que fiscais descrevam partes de animais encontradas e recebam auxílio na identificação de espécies, diferenciando aquelas com níveis distintos de proteção legal.
- Testes de DNA portáteis: kits rápidos conseguem identificar espécies em até 30 minutos, sem necessidade de laboratórios, facilitando ações em portos, estradas e áreas remotas.
- Reconhecimento de madeira: scanners portáteis analisam a estrutura celular da madeira, permitindo diferenciar espécies protegidas de alternativas legais, especialmente em regiões afetadas pelo desmatamento ilegal.
Monitoramento antes da fronteira
A atuação tecnológica não se limita aos pontos de fiscalização física. O monitoramento do comércio online tem sido essencial, já que grande parte do tráfico ocorre em plataformas digitais. Entre 2018 e 2023, empresas de tecnologia, em parceria com organizações ambientais, removeram mais de 23 milhões de anúncios e contas ligadas ao comércio ilegal de espécies protegidas.
Além disso, softwares analisam documentos de transporte e licenças comerciais em larga escala, identificando padrões suspeitos, como rotas incomuns, cargas subvalorizadas ou descrições incompatíveis com o trajeto declarado.
Apoio jurídico e cooperação internacional
Outra frente importante é a integração de bases legais de diferentes países. Novas ferramentas ajudam agentes a compreender regras de exportação, trânsito e destino, facilitando a aplicação da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (CITES), principal tratado global sobre o tema.
Pesquisas acadêmicas também utilizam dados comerciais para apontar espécies ainda vulneráveis e que podem precisar de proteção internacional mais rigorosa.
Tecnologia como aliada, não substituta
Especialistas ressaltam que nenhuma dessas soluções substitui a atuação humana. No entanto, o uso combinado dessas tecnologias permite que a fiscalização seja mais precisa, preventiva e integrada, aumentando as chances de desarticular redes criminosas que operam em escala global.
A tendência é que o combate ao tráfico de animais silvestres avance de um modelo baseado em reações pontuais para uma estratégia proativa, sustentada por dados, ciência e cooperação internacional.
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