Estudo do MP aponta agrotóxicos na água de SC

Em entrevista à rádio Cidade em Dia, promotora detalha dados e explica riscos da exposição prolongada

José Demathé

Publicado em: 24 de fevereiro de 2026

6 min.

Estudo do MP aponta agrotóxicos na água de SC Foto: Igor Jácome

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) divulgou um estudo que identificou a presença de resíduos de agrotóxicos na água de abastecimento em municípios catarinenses. O levantamento foi realizado entre 2018 e 2023, com análises em todos os 295 municípios do estado, e apontou que metade deles apresentou ao menos um tipo de resíduo detectado na água destinada ao consumo humano.

A coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Consumidor do MPSC, promotora de Justiça Aline Restel Trennepohl, detalhou os dados em entrevista concedida nesta terça-feira (24), à rádio Cidade em Dia 89.1 FM, do Grupo SCTODODIA, ao jornalista Denis Luciano.

Segundo a promotora, apesar da presença de resíduos, toda a água analisada atende aos parâmetros de potabilidade definidos pelo Ministério da Saúde e é considerada própria para consumo.

Sul de SC concentra maior percentual

De acordo com o estudo, a região Sul apresentou um dos índices mais elevados. Dos 46 municípios analisados na região, 35 registraram a presença de ao menos um ingrediente ativo de agrotóxico na água, o que representa 76% das cidades.

Em nível estadual, a maior parte dos municípios apresentou uma ou duas substâncias detectadas. No entanto, dois casos chamaram atenção pela quantidade de resíduos encontrados:

  • Imbuia, com 23 tipos diferentes de resíduos;
  • Ituporanga, com 17 tipos identificados.

O relatório completo, com planilha detalhada por município, está disponível no site do Ministério Público de Santa Catarina.

Água é considerada segura, mas alerta permanece

Durante a entrevista, Aline Restel Trennepohl explicou que não há risco imediato à saúde da população.

“A água é segura. Todos os parâmetros de potabilidade foram atendidos”, afirmou.

Segundo ela, os resíduos identificados estão altamente diluídos. No entanto, estudos científicos indicam que a exposição crônica — ao longo de décadas — pode estar associada a agravos à saúde.

A promotora também destacou que os sistemas convencionais de tratamento de água não possuem tecnologia capaz de remover completamente resíduos de agrotóxicos presentes nos lençóis freáticos.

“O agrotóxico chega à água antes mesmo de ela vir à superfície. Hoje não existe tecnologia economicamente viável e cientificamente segura para retirar esses resíduos”, explicou.

Contaminação ocorre na origem

O Ministério Público defende que o enfrentamento do problema deve ocorrer na fonte da contaminação, ou seja, no manejo e na aplicação dos produtos no campo.

Segundo a promotora, a presença das substâncias indica possível uso inadequado ou indiscriminado de agrotóxicos, que acabam atingindo o solo, o ar e os lençóis freáticos.

Ela ressaltou ainda que buscar fontes alternativas, como bicas ou nascentes, não elimina o risco, já que a contaminação atinge o lençol freático como um todo. A água distribuída pelas concessionárias, por ser tratada, continua sendo a opção mais segura para consumo.

Impacto também atinge agricultura orgânica

Outro ponto abordado foi o reflexo da contaminação na agricultura, especialmente na produção orgânica. De acordo com a promotora, produtores orgânicos podem sofrer prejuízos em casos de contaminação cruzada, seja pelo ar ou pela água.

Caso resíduos sejam identificados, o produtor pode perder a certificação orgânica e ter desvalorização do produto, mesmo sem utilizar agrotóxicos diretamente.

O Ministério Público informou que irá atuar em conjunto com outros órgãos para buscar medidas que reduzam a presença de resíduos e previnam impactos futuros à saúde pública.


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