Entre 2010 e 2026, Florianópolis deixou de ser uma capital marcada pela sazonalidade do turismo de verão e por um mercado imobiliário acessível a estudantes e servidores públicos. A cidade passou por um dos processos de valorização e transformação urbana mais intensos do Brasil, impulsionado pela consolidação como polo tecnológico e pela chegada de profissionais de alta renda, incluindo estrangeiros e nômades digitais.
Hoje, a capital catarinense figura entre as três cidades mais caras do país para locação residencial, com impactos diretos no custo de vida e no perfil social de seus moradores.
De capital sazonal a polo tecnológico global
Em 2010, a dinâmica imobiliária de Florianópolis era fortemente influenciada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pela UDESC e pelo funcionalismo público. A demanda por imóveis diminuía significativamente fora da temporada de verão.
Em 2026, o cenário é outro. A cidade passou a registrar alta procura durante todo o ano. O avanço do setor de tecnologia, conhecido como “Ilha do Silício”, aliado à atração de profissionais com renda atrelada ao dólar ou ao euro, elevou o piso dos aluguéis e promoveu uma espécie de dolarização parcial do mercado.
Mercado residencial: aluguéis disparam acima da inflação
O valor médio do metro quadrado para locação residencial em Florianópolis, em 2026, varia entre R$ 55 e R$ 65. Em bairros estratégicos, a valorização acumulada superou com folga a inflação do período, estimada entre 160% e 180%.
Os dados mostram mudanças profundas no perfil dos bairros:
- Trindade: apartamentos de dois dormitórios passaram de R$ 850 em 2010 para cerca de R$ 4.200 em 2026, uma alta de 394%. O bairro deixou de ser predominantemente universitário e passou a concentrar estúdios voltados a jovens profissionais.
- Centro: kitnets e studios saltaram de R$ 500 para R$ 2.600 (+420%), impulsionados pela procura de moradores solteiros e contratos de curta duração.
- Campeche: casas e apartamentos de dois a três dormitórios passaram de R$ 1.100 para R$ 5.800 (+427%), consolidando-se como uma das regiões mais valorizadas da ilha.
- Ingleses: imóveis antes focados no veraneio passaram a ser ocupados de forma permanente, com aluguéis anuais subindo de R$ 700 para R$ 3.200 (+357%).
- Jurerê Internacional: o aluguel de alto padrão saltou de R$ 3.500 para R$ 18 mil (+414%), reforçando o perfil voltado a executivos e expatriados.
Em termos comparativos, em 2010 um aluguel de R$ 1 mil equivalia a cerca de dois salários mínimos. Em 2026, imóveis semelhantes exigem renda muito acima da média nacional.
Mercado comercial muda de eixo
A transformação também atingiu o mercado corporativo. O antigo Centro Histórico perdeu protagonismo, enquanto a Rodovia SC-401 se consolidou como o principal corredor empresarial da capital.
- Centro: salas em prédios antigos passaram de R$ 25 para cerca de R$ 50 o metro quadrado, com estagnação e perda de atratividade.
- SC-401: lajes corporativas de padrão AAA subiram de R$ 35 para até R$ 105 o metro quadrado, refletindo forte demanda.
- Estreito: crescimento moderado, com valores passando de R$ 18 para R$ 42.
- Itacorubi: expansão ligada à inovação e ao setor público, com alta de R$ 25 para R$ 68.
Em 2010, a SC-401 concentrava lojas e concessionárias. Em 2026, abriga complexos multiuso com segurança privada, centros gastronômicos e infraestrutura corporativa avançada.
O que explica a alta dos preços
Especialistas apontam três fatores principais para a escalada dos valores:
- Efeito do short stay: imóveis destinados a plataformas como Airbnb foram retirados do mercado anual, reduzindo a oferta para moradores fixos.
- Limitação geográfica da ilha: escassez de terrenos e restrições à verticalização ampliaram a pressão sobre os preços.
- Tech-gentrificação: profissionais de tecnologia, com maior poder aquisitivo, elevaram a capacidade média de pagamento do mercado.
Impactos sociais e regionais
A alta acelerada dos aluguéis provocou o deslocamento de parte da classe média tradicional, como professores, profissionais da saúde e trabalhadores do setor de serviços, para municípios vizinhos. Cidades como Palhoça, São José e Biguaçu passaram a absorver moradores expulsos pela elevação do custo de vida na capital, aprofundando a segregação socioespacial.
Uma cidade menos acessível
A comparação entre 2010 e 2026 evidencia uma mudança estrutural. Florianópolis deixou de ser uma cidade acessível para a classe média universitária e passou a operar, em grande parte, como um mercado imobiliário de alto padrão, orientado à alta renda e ao setor tecnológico.
O desafio agora é conciliar crescimento econômico, inovação e inclusão social em uma das capitais mais valorizadas do Brasil.
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