Quatro anos sem Alice: 24 cães mantêm sonho vivo

Após morrer em show em Porto Alegre, estudante de Veterinária deixou projeto de resgate que hoje é mantido pelos pais

Ewertom Rodrigues

Publicado em: 1 de março de 2026

7 min.
Estudante que morreu em show deixou legado de resgates. Hoje, 24 cães mantêm o projeto vivo em Porto Alegre

Estudante que morreu em show deixou legado de resgates. Hoje, 24 cães mantêm o projeto vivo em Porto Alegre. - Foto: Arquivo Pessoal

A morte da estudante de Medicina Veterinária Alice Moraes, aos 27 anos, em julho de 2022, durante um show em Porto Alegre, interrompeu planos pessoais e profissionais, mas não encerrou o propósito que guiava sua vida: resgatar, tratar e encaminhar animais abandonados para adoção responsável. Hoje, 24 cães vivem na casa da família, na Zona Sul da Capital, e simbolizam a continuidade desse projeto.

Alice passou mal durante um show da cantora Luísa Sonza. Familiares relataram demora no atendimento médico. Cinco pessoas foram indiciadas por omissão de socorro em 2022, mas o Ministério Público do Rio Grande do Sul arquivou o caso em 2024, apontando ausência de nexo causal ou culpa comprovada dos profissionais.

Enquanto o processo seguia seu curso, os pais decidiram manter o que a filha havia começado.

“Eles são a nossa ligação diária com a Alice”, afirma a mãe, Angela Moraes.

Um projeto estruturado, não improvisado

Desde o início da graduação, em 2016, Alice idealizava criar um serviço organizado de resgate animal. O plano era implantar uma espécie de atendimento emergencial para cães abandonados, com protocolo definido: resgate, castração, vacinação e encaminhamento para adoção.

A jovem rejeitava a ideia de acumular animais sem planejamento. Defendia responsabilidade e acompanhamento individual.

Com o apoio da família, a residência passou por adaptações:

  • Construção de canis ventilados;
  • Separação por perfil comportamental;
  • Controle sanitário rigoroso;
  • Espaço para acolher fêmeas prenhas e filhotes.

O pai, André Moraes, já planejava trabalhar com a filha após a formatura.

“Eu queria aprender tosa e adestramento para ajudar no projeto. Era um plano nosso”, relembra.

A rotina que organiza a casa — e o luto

A rotina dos 24 cães é tratada como prioridade. Segundo a família, a organização foi fundamental para enfrentar os primeiros meses após a perda.

A casa segue um cronograma diário:

  • Alimentação controlada, com dietas específicas;
  • Administração de medicamentos individualizados;
  • Limpeza do pátio em três turnos;
  • Controle de vacinação e documentação;
  • Monitoramento de latidos no período noturno.

Os cães circulam livremente entre a casa e os canis reformados. Não há uso de correntes. Parte dos animais dorme em área fechada para evitar incômodos à vizinhança.

“A rotina deles nos obrigou a levantar, a continuar. Eles dependem da gente”, explica Angela.

Ao longo dos anos, mais de 300 animais passaram pelo local, entre resgates, tratamentos e adoções.

Desafios financeiros e sanitários

Manter o projeto exige recursos. Embora doações de ração ajudem a equilibrar os custos, as despesas veterinárias representam o maior desafio.

Internações, cirurgias e exames geram valores elevados. Em determinado período após a morte de Alice, a família chegou a acumular cerca de R$ 10 mil em contas hospitalares.

Outro problema recorrente é a leishmaniose canina, doença transmitida por mosquito, cujo tratamento é complexo e caro. Muitos cães resgatados na região testam positivo.

“A parte hospitalar pesa muito. Às vezes o tratamento é longo e o resultado não vem como a gente espera”, relata a mãe.

Mudança na legislação de eventos

A repercussão do caso também resultou em alteração na legislação municipal.

Em janeiro de 2024, entrou em vigor a Lei nº 13.832/2024, conhecida como Lei Alice de Moraes, que estabelece novas exigências para atendimento médico em eventos de grande público em Porto Alegre.

Entre os principais pontos estão:

  • Ambulâncias proporcionais ao porte do evento;
  • Equipes médicas completas;
  • Protocolos formais de emergência;
  • Estrutura compatível com o risco estimado.

Para a família, a legislação representa uma forma de transformar a dor em prevenção.

“A gente espera que isso evite que outras famílias passem pelo que passamos”, afirma André.

Uma ausência permanente

Quase quatro anos após a morte da filha, o luto permanece presente no cotidiano da família. A visita ao cemitério faz parte da rotina. A saudade, segundo eles, não diminui — apenas muda de forma.

Entre latidos, remédios e cuidados diários, os pais seguem sustentando o projeto iniciado pela filha.

“Ela queria salvar animais. Hoje, a gente cuida deles como forma de manter esse sonho vivo”, resume Angela.


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