Os shopping centers no Brasil enfrentam uma combinação de queda no público, retração nas vendas reais e mudanças no comportamento do consumidor. Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers indicam que o fluxo mensal caiu 6,2% entre 2019 e 2025, enquanto o faturamento, descontada a inflação, recuou 25% no mesmo período.
O cenário reflete transformações profundas no varejo, impulsionadas pelo crescimento do comércio eletrônico, juros elevados e menor poder de consumo da população. Diante disso, lojistas e administradoras discutem mudanças estruturais, incluindo novos modelos de atração de público e até revisão do horário de funcionamento.
Queda no público e impacto nas vendas
Apesar de uma leve recuperação após a pandemia, os shoppings voltaram a registrar retração no movimento. Em 2025, a média mensal foi de 471 milhões de visitantes, abaixo dos 476 milhões do ano anterior.
Ao mesmo tempo, o faturamento nominal cresceu 4,2% desde 2019, chegando a R$ 200,9 bilhões. No entanto, quando considerada a inflação, o setor acumula perda real significativa.
Entre os principais fatores apontados estão:
- Endividamento das famílias
- Juros elevados
- Redução do crédito disponível
- Mudança nos hábitos de consumo
Esses elementos afetam principalmente a venda de bens duráveis e semiduráveis, típicos dos shoppings.
Comércio online avança e supera shoppings
Enquanto os centros de compras físicos perdem espaço, o comércio eletrônico segue em expansão acelerada.
Segundo dados do setor:
- As vendas online atingiram R$ 235,5 bilhões em 2025
- Crescimento de 15,3% em relação ao ano anterior
- Alta real de 88% desde 2019
Desde 2024, o e-commerce já supera o faturamento dos shoppings.
Entre os diferenciais da internet estão:
- Facilidade de comparação de preços
- Ausência de custos extras (transporte, estacionamento, alimentação)
- Maior conveniência
Mudança no comportamento do consumidor
Outro fator que impacta diretamente o setor é a transformação no perfil do consumidor.
O horário de maior movimento nos shoppings deixou de ser o período da noite e passou a ser o almoço. Além disso:
- Sextas-feiras registram queda de público, influenciadas pelo home office
- Cinemas perderam atratividade com o avanço do streaming
- Parte da jornada de compra migrou para o digital
Dados da Agência Nacional do Cinema mostram que o público nas salas caiu 36% desde 2019 — e cerca de 90% desses espaços estão dentro de shoppings.
Crescimento físico em meio à queda de fluxo
Mesmo com a redução de visitantes, o setor continua expandindo:
- Número de shoppings cresceu 14% desde 2019
- Total chegou a 658 empreendimentos
- Área bruta locável aumentou 9%
A taxa média de vacância está em 4,6%, considerada controlada.
Ainda assim, especialistas questionam se a expansão faz sentido diante da redução do fluxo e da mudança estrutural no consumo.
Setor discute reduzir horário de funcionamento
Diante do novo cenário, lojistas avaliam mudanças no funcionamento dos shoppings.
Entre as propostas debatidas estão:
- Redução do horário diário (menos de 12 horas abertas)
- Fechamento mais cedo durante a semana
- Possibilidade de não abrir em determinados dias
A discussão também está ligada ao possível fim da escala de trabalho 6×1, que pode elevar custos operacionais.
Por outro lado, entidades do setor defendem a manutenção dos horários atuais, especialmente aos domingos, considerados dias de maior faturamento.
Busca por um novo modelo de negócio
Com a perda de relevância como destino de compras, os shoppings tentam se reinventar.
As principais apostas incluem:
- Expansão da área gastronômica
- Realização de eventos e experiências
- Ampliação de serviços
No entanto, os resultados ainda são limitados.
O diagnóstico do setor é de que a mudança não é pontual, mas estrutural. Em algumas regiões, como Sul e Sudeste, há sinais de esgotamento do modelo tradicional, enquanto outras ainda apresentam crescimento.
Desafio é reconquistar o consumidor
O setor de shopping centers enfrenta um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. A combinação de fatores econômicos e mudanças no comportamento do consumidor exige adaptação rápida.
A principal dúvida agora é se os empreendimentos conseguirão se reinventar a tempo de recuperar o público — ou se perderão ainda mais espaço para o ambiente digital.
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