Enquanto países da Europa e da América do Norte endurecem políticas migratórias, Criciúma tem seguido um caminho diferente. Em Criciúma, a Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) desenvolve projetos que buscam melhorar a qualidade de vida dos imigrantes, promovem acesso à saúde, aprendizado da língua portuguesa e integração social.
De acordo com dados de 2025, Criciúma possui mais de 4 mil estrangeiros residentes, entre venezuelanos, haitianos, angolanos, senegaleses, colombianos e cidadãos de outras nacionalidades. Muitos chegam ao município em busca de oportunidades, mas enfrentam desafios como a barreira do idioma, a falta de informação sobre serviços públicos e dificuldades de adaptação à cultura local.
Diante dessa realidade, a universidade tem ampliado sua atuação para além dos estudantes internacionais, desenvolvendo pesquisas e projetos de extensão voltados também aos imigrantes que vivem e trabalham na cidade.
Pesquisa identifica desafios enfrentados pelos imigrantes
Entre as principais iniciativas da instituição está o projeto Migrar, pesquisa que busca compreender as condições de vida e saúde da população imigrante em Criciúma.
Coordenado por professores da área da epidemiologia, o estudo entrevistou 119 imigrantes, com idades entre 19 e 76 anos, residentes na cidade há pelo menos seis meses.
Os resultados revelaram situações preocupantes:
- 45% dos entrevistados relataram ter sofrido discriminação no último ano;
- 60% afirmaram viver em situação de insegurança alimentar;
- 12% declararam já ter enfrentado episódios de fome.
Segundo os pesquisadores, os dados refletem a vulnerabilidade de uma população que, em muitos casos, deixa seu país de origem por questões econômicas, políticas ou ambientais e chega ao Brasil sem uma rede de apoio estruturada.
A expectativa é que os resultados da pesquisa sirvam de base para futuros trabalhos científicos e para a elaboração de políticas públicas voltadas ao acolhimento dessa população.
Acesso à saúde é uma das principais preocupações
Entre os desafios identificados pela pesquisa está a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Além das barreiras burocráticas, muitos imigrantes enfrentam obstáculos relacionados ao idioma, dificultando a compreensão de orientações médicas e o acesso às unidades de saúde.
A professora e historiadora Luc Cristina Ostetto, uma das coordenadoras do projeto ImigraSUS, explica que a universidade trabalhou em conjunto com unidades básicas de saúde dos bairros Boa Vista, Santa Luzia, Jardim Angélica e Pinheirinho para identificar as principais dificuldades enfrentadas pelos estrangeiros.
O diagnóstico apontou que a comunicação era um dos maiores entraves para o atendimento adequado, especialmente entre mulheres grávidas vindas de países africanos e da América Central.
A partir dessa constatação, foram desenvolvidas campanhas informativas voltadas ao público migrante, com materiais em diferentes idiomas para facilitar o acesso às informações de saúde.
Ensino da língua portuguesa facilita integração
Outra frente importante da atuação da universidade é o ensino do português como língua de acolhimento.
O projeto surgiu em 2019 para atender gratuitamente imigrantes em situação de vulnerabilidade, especialmente aqueles que deixaram seus países devido a conflitos, perseguições ou desastres ambientais.
Com o crescimento da demanda, a iniciativa passou a integrar as atividades da Escola de Idiomas da UNESC.
Mais do que ensinar gramática, o programa busca oferecer ferramentas práticas para o cotidiano dos imigrantes, abordando temas como:
- Funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS);
- Direitos trabalhistas;
- Emissão de documentos;
- Relações de trabalho no Brasil;
- Serviços públicos disponíveis.
A proposta é acelerar a integração social e profissional daqueles que precisam aprender rapidamente a se comunicar para trabalhar e viver no país.
Histórias que mostram o impacto do acolhimento
Entre os exemplos de imigrantes que encontraram na universidade uma porta de entrada para uma nova vida está o professor Mohamed Mustafá.
Nascido em Dakar, no Senegal, e criado na França, ele chegou a Criciúma em 2012 para aprender português. Sem conhecer o idioma e enfrentando diferenças culturais significativas, encontrou na universidade apoio para construir sua trajetória acadêmica.
O que começou como um curso de idiomas se transformou em uma graduação em Economia e, posteriormente, em uma carreira como docente da própria instituição.
Hoje, Mustafá utiliza sua experiência para apoiar outros estudantes estrangeiros que chegam à cidade.
Estudantes africanos fortalecem internacionalização
A Unesc também recebe jovens de diversos países africanos interessados em cursar o ensino superior no Brasil.
É o caso de Iancuba Sadiô, natural da Guiné-Bissau, que escolheu Criciúma para estudar Administração. Ao chegar, encontrou apoio da universidade para lidar com questões burocráticas, como documentação, transporte e adaptação à cidade.
Outro exemplo é José Artur Cambundo, de Angola, que chegou ao município em 2026 para dar continuidade a uma tradição familiar. Suas irmãs também estudaram na UNESC anos atrás.
Segundo ele, a orientação recebida pela instituição foi fundamental para entender como acessar serviços de saúde, alimentação, transporte e outros recursos necessários para a adaptação ao Brasil.
Universidade aposta na inclusão e nos direitos humanos
Para os coordenadores dos projetos, o acolhimento aos imigrantes está diretamente relacionado à defesa dos direitos humanos e ao papel social da universidade comunitária.
Em um cenário global marcado pelo avanço de discursos anti-imigração, as iniciativas desenvolvidas pela Unesc buscam demonstrar que a integração de estrangeiros pode gerar benefícios tanto para os migrantes quanto para a sociedade local.
Afinal, como lembram os pesquisadores envolvidos nas ações, a própria história de Criciúma e de Santa Catarina foi construída a partir de sucessivos processos migratórios.
Confira abaixo a reportagem especial do repórter Paulo Monteiro, da Rádio Cidade em Dia
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