A presença feminina na ciência brasileira tem crescido nos últimos anos e começa a transformar não apenas os números da pesquisa acadêmica, mas também as agendas de estudo e a formação de novas gerações de cientistas. No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, pesquisadoras da Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) refletem sobre os desafios e avanços da representatividade feminina na produção de conhecimento.
No Brasil, as mulheres já representam cerca de 44% das pessoas pesquisadoras, segundo dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Elas também são maioria nos cursos de mestrado e doutorado. Apesar desse avanço, especialistas apontam que ainda é necessário ampliar a presença feminina em posições estratégicas da ciência, como liderança de pesquisas, gestão acadêmica e atuação em áreas historicamente dominadas por homens.
Liderança feminina também transforma a gestão da ciência
Luciane Pandini Simiano. – Foto: Divulgação/UniSulPara a professora Luciane Pandini Simiano, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UniSul (PPGE), ocupar espaços de gestão dentro da universidade significa também assumir responsabilidade sobre quais vozes ganham visibilidade na produção científica.
Segundo ela, a gestão acadêmica pode influenciar diretamente a construção de uma ciência mais diversa e representativa.
“A gestão da ciência também é um ato político. Quando estamos nesses espaços, podemos decidir quais narrativas e quais corpos têm direito a produzir conhecimento. Como pesquisadora e gestora, meu compromisso é garantir que outras mulheres também possam ocupar seus lugares de fala e protagonismo na produção científica”, afirma.
Foi a partir dessa visão que surgiu o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas, Comunidades Tradicionais e Comunidade LGBTQIAP+ (NEABI+) da UniSul. A iniciativa nasceu após uma provocação da pesquisadora Josiane Anacleto, primeira mulher negra doutora em Educação do programa, que questionou a ausência de um espaço institucional dedicado ao debate sobre questões raciais.
O diálogo deu origem a uma mobilização acadêmica que acabou se expandindo para toda a universidade.
Pesquisa internacional reforça papel da inovação e inclusão
Anelise Leal Vieira Cubas – Foto: Divulgação/UniSulOutro exemplo do protagonismo feminino na pesquisa é o trabalho da professora Anelise Leal Vieira Cubas, do Programa de Pós-Graduação em Administração da UniSul. Recentemente, ela concluiu um pós-doutorado de três meses na Cambridge Judge Business School, da University of Cambridge, no Reino Unido.
O estudo integra um projeto financiado pelo CNPq e analisa sistemas de pagamento instantâneo como ferramentas de inclusão financeira.
A pesquisa compara o Pix, no Brasil, operado pelo Banco Central, com a Interface Unificada de Pagamentos (UPI), utilizada na Índia. Ambos os sistemas são estudados como Infraestruturas Públicas Digitais capazes de ampliar o acesso da população a serviços financeiros.
O trabalho aponta que o modelo brasileiro, centralizado, favoreceu a rápida disseminação do Pix e sua integração com políticas públicas. Já o sistema indiano, estruturado em camadas, impulsionou a inovação entre fintechs e ampliou a escalabilidade do serviço.
Para a pesquisadora, a experiência internacional reforçou a importância de políticas de regulação, governança de dados e proteção de usuários para garantir que a inclusão digital seja sustentável.
“Estar em Cambridge, uma universidade com mais de 800 anos de história e referência mundial em pesquisa, foi um privilégio para quem trabalha com ciência há 25 anos. Voltei com novos olhares e ainda mais convicção sobre o papel da inovação frugal na promoção de inclusão e sustentabilidade”, afirma.
Incentivo às novas gerações de cientistas
Francielen Kuball Silva. – Foto: Divulgação/UniSulA formação de novas pesquisadoras também faz parte da estratégia para ampliar a presença feminina na ciência. Em 2025, a professora Francielen Kuball Silva, coordenadora da Olimpíada Catarinense de Química (OCQ), liderou o primeiro encontro Mulheres e Meninas na Ciência, realizado no campus da UniSul em Tubarão.
O evento reuniu estudantes do ensino médio, universitárias, professoras da educação básica e profissionais da área científica.
Entre as atividades propostas estavam experiências práticas em laboratório, jogos didáticos e a produção de produtos de limpeza para análise científica. As participantes desenvolveram um lava-roupas e avaliaram sua qualidade, conectando teoria e prática.
“Tivemos todas as vagas preenchidas e o laboratório lotado. O mais bonito foi ver o entusiasmo das estudantes quando colocaram a mão na massa. A proposta é mostrar que a ciência é um espaço possível para todos e incentivar que mais meninas se enxerguem nesse caminho”, destaca a professora.
Diversidade amplia a produção de conhecimento
Para as pesquisadoras, ampliar a presença feminina na ciência não significa apenas aumentar estatísticas. A diversidade de trajetórias e perspectivas também contribui para ampliar a qualidade e o alcance da produção científica.
Ambientes acadêmicos mais diversos tendem a gerar novas perguntas, novas metodologias e respostas mais amplas para os desafios da sociedade.
Nesse cenário, a presença de mulheres na liderança de pesquisas, na gestão universitária e na formação de novos cientistas aparece como um fator estratégico para o futuro da ciência.
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