Cientistas mulheres ganham espaço e mudam rumos da pesquisa

Pesquisadoras da UniSul destacam liderança feminina, inclusão na ciência e incentivo a novas gerações durante o mês da mulher

Redação

Publicado em: 7 de março de 2026

9 min.
Cientistas mulheres ganham espaço e mudam rumos da pesquisa. - Foto: Divulgação/Conselho Federal Química

Cientistas mulheres ganham espaço e mudam rumos da pesquisa. - Foto: Divulgação/Conselho Federal Química

A presença feminina na ciência brasileira tem crescido nos últimos anos e começa a transformar não apenas os números da pesquisa acadêmica, mas também as agendas de estudo e a formação de novas gerações de cientistas. No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, pesquisadoras da Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul) refletem sobre os desafios e avanços da representatividade feminina na produção de conhecimento.

No Brasil, as mulheres já representam cerca de 44% das pessoas pesquisadoras, segundo dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Elas também são maioria nos cursos de mestrado e doutorado. Apesar desse avanço, especialistas apontam que ainda é necessário ampliar a presença feminina em posições estratégicas da ciência, como liderança de pesquisas, gestão acadêmica e atuação em áreas historicamente dominadas por homens.

Liderança feminina também transforma a gestão da ciência

Luciane Pandini Simiano. – Foto: Divulgação/UniSul

À frente da coordenação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UniSul (PPGE), a professora Luciane Pandini Simiano defende que ocupar espaços de gestão na universidade implica assumir também uma responsabilidade política na construção do conhecimento. Para ela, as decisões institucionais influenciam diretamente quais vozes ganham visibilidade na produção científica.

Foi a partir dessa compreensão que surgiu o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas, Comunidades Tradicionais e Comunidade LGBTQIAP+ (NEABI+) da UniSul. A iniciativa nasceu de uma provocação feita pela orientanda Josiane Anacleto, primeira mulher negra doutora em Educação do PPGE, que questionou a ausência de um espaço institucional dedicado à pesquisa sobre questões raciais. O diálogo entre elas deu origem a uma mobilização que se expandiu para o programa de pós-graduação e, posteriormente, para a universidade. A experiência, segundo Luciane, resume o papel que a escuta e a pluralidade devem ocupar no ambiente acadêmico.

“A gestão da ciência também é um ato político. Quando estamos nesses espaços, podemos decidir quais narrativas e quais corpos têm direito a produzir conhecimento. Como pesquisadora e gestora, meu compromisso é garantir que outras mulheres também possam ocupar seus lugares de fala e protagonismo na produção científica”, afirma a professora Luciane.

Além da atuação institucional, a professora destaca que a formação de novas pesquisadoras é um dos pilares de sua trajetória acadêmica. Para ela, orientar teses e dissertações é também um processo de emancipação intelectual, capaz de fortalecer uma ciência mais crítica e diversa.

Pesquisa internacional reforça papel da inovação e inclusão

Anelise Leal Vieira Cubas – Foto: Divulgação/UniSul

Outro exemplo do protagonismo feminino na pesquisa é o trabalho da professora Anelise Leal Vieira Cubas, do Programa de Pós-Graduação em Administração da UniSul. Recentemente, ela concluiu um pós-doutorado de três meses na Cambridge Judge Business School, da University of Cambridge, no Reino Unido.

O estudo integra um projeto financiado pelo CNPq e analisa sistemas de pagamento instantâneo como ferramentas de inclusão financeira.

A pesquisa compara o Pix, no Brasil, operado pelo Banco Central, com a Interface Unificada de Pagamentos (UPI), utilizada na Índia. Ambos os sistemas são estudados como Infraestruturas Públicas Digitais capazes de ampliar o acesso da população a serviços financeiros.

O trabalho aponta que o modelo brasileiro, centralizado, favoreceu a rápida disseminação do Pix e sua integração com políticas públicas. Já o sistema indiano, estruturado em camadas, impulsionou a inovação entre fintechs e ampliou a escalabilidade do serviço.

Para a pesquisadora, a experiência internacional reforçou a importância de políticas de regulação, governança de dados e proteção de usuários para garantir que a inclusão digital seja sustentável.

“Estar em Cambridge, uma universidade com mais de 800 anos de história e referência mundial em pesquisa, foi um privilégio para quem trabalha com ciência há 25 anos. Voltei com novos olhares e ainda mais convicção sobre o papel da inovação frugal na promoção de inclusão e sustentabilidade”, afirma.

Incentivo às novas gerações de cientistas

Francielen Kuball Silva. – Foto: Divulgação/UniSul

A formação de novas pesquisadoras também faz parte da estratégia para ampliar a presença feminina na ciência. Em 2025, a professora Francielen Kuball Silva, coordenadora da Olimpíada Catarinense de Química (OCQ), liderou o primeiro encontro Mulheres e Meninas na Ciência, realizado no campus da UniSul em Tubarão.

O evento reuniu estudantes do ensino médio, universitárias, professoras da educação básica e profissionais da área científica.

Entre as atividades propostas estavam experiências práticas em laboratório, jogos didáticos e a produção de produtos de limpeza para análise científica. As participantes desenvolveram um lava-roupas e avaliaram sua qualidade, conectando teoria e prática.

“Tivemos todas as vagas preenchidas e o laboratório lotado. O mais bonito foi ver o entusiasmo das estudantes quando colocaram a mão na massa. A proposta é mostrar que a ciência é um espaço possível para todos e incentivar que mais meninas se enxerguem nesse caminho”, destaca a professora.

Diversidade amplia a produção de conhecimento

Para as pesquisadoras, ampliar a presença feminina na ciência não significa apenas aumentar estatísticas. A diversidade de trajetórias e perspectivas também contribui para ampliar a qualidade e o alcance da produção científica.

Ambientes acadêmicos mais diversos tendem a gerar novas perguntas, novas metodologias e respostas mais amplas para os desafios da sociedade.

Nesse cenário, a presença de mulheres na liderança de pesquisas, na gestão universitária e na formação de novos cientistas aparece como um fator estratégico para o futuro da ciência.


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