Estudo alerta: crise hídrica extrema pode atingir 750 milhões de pessoas

Simulações climáticas indicam que o chamado “Dia Zero de Seca” pode se tornar realidade em regiões vulneráveis já nas próximas décadas

Imagem ilustrativa criada com Inteligência Artificial.
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Um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications acende um alerta global sobre a segurança hídrica: até 750 milhões de pessoas podem ser afetadas por episódios extremos de falta de água até o ano de 2100. A pesquisa foi conduzida pelo Centro de Física Climática do Instituto de Ciências Básicas (IBS), da Coreia do Sul, e aponta que o chamado Dia Zero de Seca pode ocorrer muito antes do que se imaginava.

De acordo com os pesquisadores, simulações climáticas globais mostram que, em cerca de 35% das regiões mais vulneráveis do planeta, a demanda por água pode superar a oferta disponível já nos próximos 15 anos, pressionando cidades, áreas rurais, reservatórios e sistemas de abastecimento.

O que é o Dia Zero de Seca e por que ele preocupa

O Dia Zero de Seca, ou DZD, é o ponto crítico em que a demanda local por água ultrapassa a capacidade de fornecimento proveniente de chuvas, rios e reservatórios. Esse conceito é utilizado para identificar limites de abastecimento antes que ocorra o colapso dos sistemas hídricos.

Segundo o estudo, a identificação antecipada desses limites é essencial para o planejamento e a gestão da água, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Episódios recentes de crise hídrica em grandes cidades ao redor do mundo já demonstraram o grau de vulnerabilidade das populações diante da escassez prolongada.

Como o estudo foi feito

A pesquisa se baseou em modelos climáticos de última geração, utilizando os cenários SSP3-7.0 e SSP2-4.5, que simulam diferentes trajetórias de emissões de gases de efeito estufa. As análises consideraram fatores como redução prolongada das chuvas, diminuição do fluxo dos rios e aumento contínuo do consumo de água.

O objetivo foi estimar quando a procura local ultrapassará a oferta disponível, caracterizando o primeiro surgimento do Dia Zero de Seca. Os resultados indicam que esses eventos podem ocorrer de forma mais rápida e intensa do que projeções anteriores apontavam.

Regiões mais expostas e cronograma do risco

As simulações identificam áreas críticas no Mediterrâneo, no sul da África e em partes da América do Norte. Nessas regiões, a combinação entre clima mais seco e alta demanda hídrica eleva significativamente o risco de colapso no abastecimento.

Segundo os pesquisadores, é provável que o Dia Zero de Seca atinja 35% das regiões vulneráveis em até 15 anos. Até o final do século, as condições extremas podem afetar cerca de 750 milhões de pessoas em todo o mundo.

Impactos diferentes em áreas urbanas e rurais

Do total de pessoas potencialmente expostas, aproximadamente 470 milhões vivem em áreas urbanas, enquanto cerca de 290 milhões estão em regiões rurais. O Mediterrâneo concentra a maior exposição urbana, conforme as projeções do estudo.

Já o Norte e o Sul da África, além de partes da Ásia, enfrentam os impactos rurais mais severos. Nessas localidades, a dependência direta de recursos hídricos locais amplia a vulnerabilidade das comunidades e compromete meios de subsistência.

Reservatórios sob ameaça

Outro dado preocupante apresentado pelo estudo é que cerca de 14% dos principais reservatórios de água do planeta podem secar já durante seus primeiros eventos de Dia Zero de Seca. Mesmo em um cenário em que o aquecimento global seja limitado a 1,5 °C, centenas de milhões de pessoas ainda enfrentariam uma escassez hídrica sem precedentes.

O que dizem os autores

A primeira autora do estudo, Vecchia P. Ravinandrasana, afirma que as secas do Dia Zero já não são um cenário distante. Segundo ela, sem adaptação imediata e gestão sustentável da água, o risco tende a crescer rapidamente.

O autor correspondente, Christian L. E. Franzke, destaca que o agravamento do estresse hidrológico aumenta a probabilidade de colapso dos reservatórios, com impactos diretos na segurança hídrica global.

Base científica e apoio institucional

O estudo, intitulado “O primeiro surgimento de escassez global de água sem precedentes no Antropoceno”, foi publicado em 23 de setembro de 2025. A pesquisa contou com apoio do Instituto de Ciências Básicas da República da Coreia e do Fundo Nacional de Pesquisa da Coreia, reforçando a solidez científica e institucional das conclusões apresentadas.


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