Com cerca de 8,9 mil quilômetros quadrados — o equivalente a um Distrito Federal e meio — e aproximadamente 3,2 milhões de habitantes, Porto Rico ocupa uma posição política singular no cenário internacional. Território natal do cantor Bad Bunny, a ilha caribenha pertence oficialmente aos Estados Unidos, mas não integra a federação norte-americana como um estado, o que gera debates históricos, jurídicos e políticos sobre sua real condição.
O que é Porto Rico dentro dos Estados Unidos
Porto Rico é classificado oficialmente como um “Estado Livre Associado” dos EUA. Na prática, isso significa que o território possui autonomia administrativa limitada, com governo próprio e eleição de governador. No entanto, os porto-riquenhos não podem votar para presidente dos Estados Unidos e não têm representantes com direito a voto no Congresso americano.
Apesar dessas restrições políticas, os moradores da ilha são cidadãos estadunidenses, têm livre trânsito pelo território dos EUA, estão sujeitos às leis federais e podem servir às Forças Armadas do país. Porto Rico também abriga bases militares norte-americanas, mas não participa diretamente das relações internacionais.
Colônia ou Estado Livre Associado?
Essa combinação de deveres sem direitos plenos leva parte de especialistas e movimentos políticos a classificarem Porto Rico como uma colônia moderna dos Estados Unidos. Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília, Gustavo Menon, a ilha mantém mecanismos de governo local, mas segue subordinada às decisões de Washington.
Segundo o especialista, a ausência de representação política plena, somada à submissão às leis federais, caracteriza uma relação de dependência. “É um resquício neocolonial que persiste na primeira metade do século 21”, avalia Menon.
A posição da ONU sobre Porto Rico
A Organização das Nações Unidas (ONU) não inclui Porto Rico na lista oficial de “Territórios Não Autônomos” desde 1952, quando foi instituído o status de Estado Livre Associado. Por esse motivo, o território não é considerado uma colônia clássica pelo direito internacional.
Entretanto, o Comitê Especial de Descolonização da ONU adota uma visão diferente. Em relatório publicado em março de 2025, o relator especial Koussay Aldahhak classificou Porto Rico como uma “situação colonial”, destacando que o Congresso dos EUA detém plenos poderes sobre áreas estratégicas como defesa, política monetária, comércio exterior e relações internacionais.
Bad Bunny e o debate político no Super Bowl
A discussão sobre a identidade e a soberania de Porto Rico ganhou projeção internacional durante o Super Bowl, no último domingo (9), em São Francisco. Bad Bunny protagonizou o show do intervalo cantando em espanhol — algo inédito no evento — e exaltou as culturas latino-americanas.
Crítico da política anti-imigração do presidente dos EUA, Donald Trump, o cantor utilizou o slogan “Deus abençoe a América” para, em seguida, citar todos os países da América Latina, defendendo uma benção estendida a todo o continente. Bandeiras de diversos países latino-americanos foram exibidas ao lado da bandeira dos EUA no estádio.
A apresentação gerou reação negativa de Trump, que classificou o show como “absolutamente terrível” e criticou o uso do espanhol e a performance artística.
Porto Rico e o exemplo do Havaí
Em suas músicas, Bad Bunny frequentemente denuncia a influência dos Estados Unidos sobre Porto Rico. Durante o show, o artista citou o Havaí como exemplo de território que se tornou estado norte-americano, mas que, segundo ele, perdeu parte de sua identidade cultural indígena após a anexação.
A crítica reforça o temor de setores da sociedade porto-riquenha de que a transformação em estado possa significar a diluição de tradições e da identidade cultural da ilha.
Da colonização espanhola ao domínio dos EUA
Até o final do século 19, Porto Rico era colônia da Espanha, ao lado de Cuba. Após a Guerra Hispano-Americana de 1898, os Estados Unidos assumiram o controle da ilha. Em 1917, os porto-riquenhos passaram a ter cidadania norte-americana e, em 1952, foi criado o status político atual.
Segundo especialistas, para parte da elite política de Washington, Porto Rico funciona como um “protetorado”. Nesse contexto, Bad Bunny exerce uma forma de soft power, utilizando a cultura e a música como instrumentos de afirmação política e identidade latino-americana.
Referendos e o futuro político da ilha
Desde 1967, Porto Rico realizou sete referendos consultivos sobre seu status político. O mais recente, em 2024, indicou que 58% dos eleitores defendem a transformação da ilha em um estado dos EUA. Outros 29% preferem a livre associação e 11% defendem a independência.
Apesar dos resultados, os plebiscitos não são vinculantes e não obrigam o Congresso dos Estados Unidos a tomar qualquer decisão. Além disso, as consultas costumam ser questionadas pela baixa participação popular ou pelo formato das perguntas apresentadas.
Enquanto isso, Porto Rico segue vivendo uma condição política singular: pertencente aos Estados Unidos, mas sem os mesmos direitos de um estado, e cada vez mais presente no debate internacional por meio da cultura e da música.
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