Novembro Roxo: “A sensação é de luto. É muito estranho você estar na maternidade e o seu bebê não estar ao seu lado”

A experiência de quem vive a prematuridade e o que pode ser feito para reduzir os casos. Hoje cerca de 300 mil bebês prematuros nascem no Brasil todos os anos.

Imagem ilustrativa criada com Inteligência Artificial.
Sugerir conteúdo pelo WhatsApp

Quem vê o menino Cauã, de seis anos, hoje; não imagina tudo o que esse pequenino passou para sobreviver. Cauã nasceu com 36 semanas de gestação, mas teve complicações na hora do parto o que causou uma asfixia neonatal. Sem a oxigenação correta, o cérebro foi afetado. A mãe, Marlana Kusama, lembra dos momentos vividos durante e após o parto. “Cauã nasceu prematuro porque eu tive um descolamento de placenta com 36 semanas de gestação. Foram 18 dias na UTI neonatal. Como o caso dele era muito grave, eu não podia ficar o tempo todo com ele, apenas em alguns horários. A sensação é de luto. É muito estranho você estar na maternidade e o seu bebê não estar ao seu lado”, fala. 

Na época a família morava em Curitiba (PR), e logo após o nascimento, o Bebê foi levado para a UTI neonatal do Hospital Pequeno Príncipe, uma unidade especializada em atendimentos de alta complexidade. Marlana é médica pediatra, e lembra que teve que estudar muito para entender o que estava acontecendo com o próprio filho. “Ele era um bebê desacreditado. Com quatro ou cinco dias de vida, o encefalograma mostrava um extenso sofrimento cerebral. A gente não sabia o que ai acontecer. Ele estava sedado e recebia muitas medicações para evitar as crises de epilepsia”, lembra. 

Segundo Marlana, após alguns dias a família optou por tirar a medicação para ver como o pequeno iria reagir. Apesar dos exames mostrarem crises convulsivas 24 horas por dia, clinicamente ele não apresentava sinais de epilepsia e começou demonstrar sinais de melhora. “Foi indo bem, seguia bem, respirava bem, até que deram alta pra gente. Mesmo assim, voltávamos a cada 15 dias para o hospital e ficávamos 24 horas pra fazer os exames”, conta. 

Uma das explicações para o caso de Cauã é que ele desenvolveu uma parte do cérebro que normalmente não desenvolvemos, o que compensou a função da parte lesionada. “Senão ele seria uma criança vegetativa”, completa Marlana. 

Hoje Cauã é ativo, sapeca, falador, adora carros e velocidade, está aprendendo a ler e escrever, e aparentemente não tem nenhuma sequela, mesmo assim o acompanhamento médico continua. Todos os anos o menino passa por uma bateria de exames com o médico especialista.  

Casos de prematuridade no Brasil

Cauã é um dos 300 mil bebês que nascem prematuros todos os anos no Brasil, o que equivale a cerca de 11% de todos os nascimentos. Com esse índice o Brasil está em décimo lugar no mundo com mais casos de nascimentos antes da hora. Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, prematuridade é quando o nascimento ocorre antes de 37 semanas de gestação.

Segundo o médico Sérgio Alberto de Quadros, que atua na UTI Neonatal do Hospital e Maternidade Marieta Konder Borhausen, em Itajaí são atendidos de 30 a 40 casos de bebês prematuros por mês. “A maioria são prematuros tardios acima de 34 semanas e com peso acima de dois quilos. Geralmente esses bebês se saem muito bem. Aqueles bebês com menos de um quilo, que são os prematuros entre 24 e 27 semanas de gestação, que felizmente são pouco comuns, eles tem uma sobrevida de 60% dependendo de vários fatores” explica. 

Entre os fatores que influenciam na sobrevida dos prematuros mais graves está o atendimento especializado. “A maioria dos bebês sobrevive e sem sequelas, desde que a mãe ganhe o bebê num hospital com unidade neonatal preparada pra isso, como é o caso do Marieta de Itajaí. É claro que em vários lugares não há boa assistência já no pré-natal e não existem hospitais que tenham esses unidades atendendo prematuros, então isso vai tornar a vida desses pequeninos bem difícil. A prematuridade está entre as principais causas de mortalidade infantil no mundo todo e principalmente no nosso país, que é um país em desenvolvimento”, comenta. 

 

Quais as principais causas e como reduzir os casos?

Ainda conforme o pediatra, entre as principais causas para o parto prematuro estão as causas associadas à mãe como “infecções urinárias de repetição que rompem membra amniótica, hipertensão, sangramentos, incompetência cervical, útero que não consegue segurar a gestão, diabetes nutricional, entre outras. E também causas inerentes ao país, como baixo nível socioeconômico, nutrição inadequada, estresse físico e psicológico, além do fumo e uso de drogas.”

Na opinião do especialista para reduzir os casos de prematuridade, e por consequência a mortalidade, é preciso ter atenção e assistência antes mesmo da gravidez. “Metade dos casos de partos prematuros poderiam ser prevenidos. A orientação é que a mulher que está em idade e quer engravidar, faça uma avaliação com obstetra e ginecologista para averiguar a anatomia da pelve, do útero e dos ovários; seja avaliado o histórico de prematuros na família e as condições hormonais. Depois é preciso fazer ultrassom, além das consultas e acompanhamento rigoroso com os profissionais médicos. Um pré-natal bem feito vai monitorar essa gravidez e verificar os riscos de parto prematuro”, explica. 

O problema é que nem sempre a rede de atendimento à mulher funciona como deveria o que reforça a importância de campanhas como o Novembro Roxo, que alerta para a necessidade de falar sobre o assunto, conscientizar a população, mas principalmente cobrar das autoridades mais recursos. “No Brasil, metade das gestantes atendidas pelo SUS não consegue fazer ultrassom, que é um exame muito importante para definir a idade gestacional e acompanhamento pré-natal”, revela o médico pediatra, Sérgio Alberto de Quadros.  

Acompanhamento para a vida toda

Além do atendimento especializado na hora do nascimento, Sérgio alerta que bebês prematuros tem que ter acompanhamento durante toda a vida. “Hoje os estudos demonstram que o prematuro precisa de cuidado a vida toda, por serem mais suscetíveis à infecções, problemas no desenvolvimento neuropsicomotor, aprendizagem… Então quando damos alta, encaminhamos esse paciente para uma equipe multidisciplinar para acompanha-lo até a vida adulta”. 

 

Fique bem informado

Receba no WhatsApp e na newsletter as principais notícias da sua região, alertas de serviço e os destaques de Santa Catarina, com a curadoria do SCTODODIA.

Player de rádio